TERRA ESTRANGEIRA: Um mar galego

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La Coruña – Espanha, 27 de Janeiro de 2018.

Hoje, Santiago de Compostela amanheceu sobre uma densa névoa. Toda cidade parecia coberta por esse véu de branco cinza que cai por sobre os prédios sem conseguir molhar o chão, como se a umidade abraçasse a paisagem em uma bolha. Ontem, ao chegarmos no finzinho da tarde, já havíamos visto uma Santiago completamente diversa daquela de 2006 e não me pareceu ser isso apenas sintoma do inverno.  

Pelas ruelas medievais haviam muitas lojas e cafés, mas a minha impressão era a de que os produtos vendidos não eram mais os mesmos de doze anos atrás. Se naquela Santiago de verão a quinquilharia turística parecia atender os anseios de um público “alternativo” do final dos anos 90 e do começo do século, uma passada rápida de olhos nas vitrines das lojas, me indicou que as preferências dos clientes haviam migrado para marcas sofisticadas e elitistas.

A Santiago que encontramos não era mais uma cidade luminosa, cheia de gente colorida pelas ruas, com aquele ar neo hippie que embalou a virada do milênio. A Santiago daquele verão de 2006 me pareceu com a Cuzco que encontrei em 1995 ou com a Pipa da minha juventude.

Com as ruas entupidas de música e lojas vendendo lembranças turísticas e peças que simulavam o artesanato galego, cheios de referências à cultura pagã dos antigos celtiberos, aquela Santiago de verão parecia fazer parte de uma rede invisível que juntava lugares distantes do mundo através de nódulos de turismo New Age.

Agora, essa Santiago de inverno me pareceu, por sua vez, muito mais sisuda, fria e europeia, com suas lojas de roupa de estação vendendo joias caretas e brilhantes caros feitos para madames de nariz empinado da zona do euro. Em seus supermercados, suas lojas de conveniência e suas galerias de arte,  tudo soava modernoso, processado, embalado em pacotes industrializados. Tudo excessivamente kitsch ou simplesmente clássico demais para alguém como eu, nascido e criado na beira do mar, imprensado entre as dunas do Atlântico Sul e as águas salobras do Potengi.

As referências ao paganismo celta pareciam ter desaparecido, junto com as bandeiras da “pátria galega” que ficavam estendidas nas sacadas dos edifícios residenciais. No lugar, referências muito mais marcantes ligadas ao catolicismo ibérico e ao culto à realeza da casa de Aragão e Castela.

Seria isso apenas uma mudança no perfil dos turistas que visitam a cidade? Será que, dos meus vinte e poucos para os meus quarenta e tantos anos, a turma encaretou de vez, assumindo um conservadorismo geracional reacionário?

Junto com as bandeiras da Galiza, sumiram do meu campo de visão, também as pichações nos muros e nos terrenos baldios exaltando a “pátria galega”, assim como as camisas com referências ao nacionalismo celta aqui do noroeste espanhol.

Nem mesmo quando chegamos em La Coruña, hoje na hora do almoço, para ver o mar, próximo à famosa Torre de Hércules, achamos referências a esse nacionalismo que me parecia tão presente no começo do século.

Passeando pela orla, paramos bem em frente a uma torre, construída por volta do século I d.C. por um arquiteto lusitano, com o objetivo de abrigar legionários romanos. A tal torre depois foi transformada em uma fortaleza militar que resistiu, inclusive, ao bombardeio da marinha britânica durante a peleja que envolveu Felipe II e Elizabeth I no século XVI.

Ali a gente achou uma rosa dos ventos feita com granito, ardósia e cerâmica assentada no solo rochoso, bem na ponta de um penhasco já nos limites do cabo da Coruña. A obra, que não estava assinada por nenhum artista específico, tinha a data de 1994 e apontava, marcando os limites setentrionais da Espanha, em direção ao Atlântico norte, para a Ilha de Man, para o Eyre, para a Bretanha e para a própria Galiza. Lugares registrados na pedra, escritos com seus nomes celtas em língua gaélica original.

Apesar dessa referência às ligações ancestrais do povo desta terra com seus primos bretões e irlandeses, caminhando pelas ruas do centro histórico de La Coruña, enquanto tentávamos, em vão, procurar um restaurante aberto às 16:00 (mais uma vez esquecemos da siesta); vi tremulando nas sacadas dos apartamentos inúmeras bandeiras da Espanha, além de várias flâmulas com alusão ao aniversário do Rei (que fez 50 anos terça-feira da semana passada).

Nossa amiga Renata Silveira, lá no Porto, comentava que a Espanha estava sob uma ditadura monarquista após a tentativa de secessão da Catalunha (ocorrida há pouco tempo). Uma reação unionista que se articulou ao redor da figura do monarca e do catolicismo ibérico. Esse movimento político conservador talvez possa ter realmente obliterado um pouco os impulsos identitários dos galegos, não sei ao certo… é difícil atestar isso em uma passagem tão curta como a nossa. Certamente precisaríamos de uma imersão mais longa naquelas cidades tão antigas para entender melhor essa questão.

Quando nos afastamos pela estrada, tomando o rumo de volta para Santiago de Compostela, a única certeza que me pareceu evidente sobre aquele lugar, e sobre as mudanças que eu parecia intuir, era que o mar galego no inverno, ao menos em La Coruña, é frio e profundo. Mesmo coberto por aquela névoa ténue que percorre o norte da Espanha, esse mar me soou ruidoso e selvagem, cheio das violências homéricas que povoam os hinos das antigas epopeias.

As identidades de um continente tribal como é a Europa sempre me pareceram um pouco como esse mar. Podem, na superfície, aparentar calmaria, mas costumam, com uma constância inequívoca, agitar-se em suas profundezas tormentosas e se lançar, com o ímpeto tempestuoso da história, sobre as muralhas das nossas mais consolidadas convenções políticas.

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Pablo Capistrano

Escritor, professor de Filosofia e Direito do IFRN. Dramaturgo do grupo Carmin de Teatro.

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