A estética era folk; a alma, inteiramente azul. Azul profundo como as madrugadas do Delta — território espiritual que jamais abandonou, embora tenha nascido em Nova York. Filho do lendário produtor John Henry Hammond e herdeiro de sobrenomes ilustres, John Hammond Jr. escolheu outro legado: o pó da estrada, os palcos esfumaçados do Village e o som ancestral forjado pelos descendentes de homens e mulheres escravizados. Preferiu a verdade do blues ao conforto das genealogias.
Partiu no último sábado (28), aos 83 anos. A notícia chegou de forma discreta, como seus acordes — sussurrada entre amigos próximos, quase no mesmo tom com que dedilhava a dor transformada em música.
Chamavam-no de John Hammond Jr. ou John P. Hammond — distinções necessárias para não confundi-lo com o pai célebre. Mas sua identidade verdadeira estava no timbre rouco, na gaita rasgando o silêncio e no violão ressonador vibrando como trilhos antigos. Sua voz talvez não alcançasse grandes extensões — alcançava profundidades. Não buscava potência; buscava verdade.
Nos anos 1960, quando Nova York fervilhava entre cafés, poesia e revoluções musicais, comparavam-no a Bob Dylan. Hammond sorria, entre a ironia e o afeto: “Canto melhor, sou mais belo e faço um blues que vem da alma. Bob é folk e o faz muito bem.” Era brincadeira — mas também afirmação. Hammond era do blues. E o blues era dele.
Inspirado por Jimmy Reed, abandonou a Antioch College para seguir o chamado definitivo do violão. Em 1963, assinou com a Vanguard Records e lançou um álbum de estreia reverente a mestres como Muddy Waters, Lightnin’ Hopkins e Robert Johnson, além de prestar tributo a Chuck Berry. A partir dali, construiu uma discografia fiel ao blues tradicional — acústico, cru, essencial — somando décadas de devoção ao gênero.
Dividiu caminhos com gigantes como Jimi Hendrix, Eric Clapton, The Band, Dr. John, John Mayall e Duane Allman. Foi o único a ter Hendrix e Clapton na mesma banda, ainda que por apenas cinco dias — tempo suficiente para entrar na mitologia do rock. Gravou com integrantes do The Band antes de recomendá-los a Dylan e apresentou ao mundo o documentário The Search for Robert Johnson, reafirmando seu papel de guardião da memória do blues.
Nos anos 2000, mergulhou na poesia áspera de Tom Waits e lançou Wicked Grin, quase integralmente dedicado ao compositor. Ganhou Grammy, recebeu outras indicações e foi incluído no Blues Hall of Fame, em 2011.
Nunca foi um fenômeno de massas — e talvez isso seja parte de sua grandeza. Hammond não caçava aplausos fáceis. Buscava o som forjado na madeira e no metal, no sopro e na carne, na dor que se transforma em canção.
John Hammond Jr. partiu.
Mas o blues que carregava permanece.
