A Viagem

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Emanuel era uma criança singular. Oito anos, filho mais novo de sete, morador da Pracinha de Ponta Negra. Muito sociável fora do ambiente familiar. Sua mãe Rosa era empregada doméstica, mas não tinha a sorte de trabalhar todos os dias. Tinha, sim, o olhar e abraço do caçula, diariamente, que não havia preço. Seus irmãos eram todos envolvidos com o trabalho ilícito, mas apenas dois eram usuários. Adailton, seu pai, servente de pedreiro que não conseguia emprego por sempre estar embriagado e(ou) drogado, normalmente, batia em Rosa quando ela não conseguira trabalho.

Ainda que muito pequeno, fizera sua rotina para uma boa saúde mental: acordava às cinco horas da manhã para apreciar o barulho das ondas e o encontro do céu com o mar. Alguns amigos, ele encontrava diariamente: caminhando ou correndo na praia. Dizia que os mais novos e jovens faziam a atividade para mostrar o resultado no final de semana, e os idosos, para aproveitarem netos e bisnetos. Esses ele só via de segunda à sexta.

Sua mania era catar tampinhas de garrafas e juntar como se fossem moedas, além de analisar sorrisos, cenas e comportamentos. Queria muito viajar: não do pé do Morro do Careca, não de seu lugar de contemplação e paz. Mas da Infância.

Emanuel criou esses rituais por muitos motivos. Voltava para casa às seis da manhã, para se arrumar e ir à escola, bem como, ver alguns irmãos no café (quando tinha) e ele nunca sabia quem estaria presente, além de sua mãe. A quem dava um abraço antes de sair, pegava em suas mãos e olhava em seus olhos como quem diz que ama com afinco. Ela, certamente, o sentia.

Fazia as tarefas de casa na própria escola, para poder ser ajudante da barraca do Sr. Almir, no fim de tarde, e juntar uns trocados para sua mãe, que nunca havia pedido, mas sabia que esse pequeno esforço o tirava do destino que os outros foram consumidos.

Ele gostava de olhar as pessoas que sentavam e comiam sozinhas, umas com solidão e outras preenchidas de solitude. Ele ia construindo quem quisera ser. Casais de turistas que não perguntavam preços, apenas pediam seus pratos e bebidas. Pessoas da cidade que pareciam querer fugir de alguma realidade. Mulheres bonitas traídas pelos olhares de seus companheiros para outras que, simplesmente, passavam. Certa vez, ao atender uma cliente chorando, como quem não sentia as lágrimas descerem pelo rosto, ele disse:

– A senhora é muito forte, sua tristeza sai de seu corpo, o meu coração esconde as minhas no encontro do céu com o mar. Todas as manhãs, ele as guarda, e, no outro dia, a maré amanhece mais cheia.

Riu, arrancando sorriso da jovem, a quem com todo respeito, chamou de senhora.

Sr. Almir, sabia da realidade de Emanuel, mas ele também era a atração da barraca. Nunca entendia o que, raramente, falava a alguém, mas era o único motivo de ter clientes fiéis diante da concorrência. Dessa forma, o ajudava sempre com mais que, normalmente, se dava aos ajudantes.

Emanuel chegava em casa no começo da noite e esperava o melhor momento para entregar as economias à mãe. O pai nem seus irmãos poderiam ver. O abraço dele era o fio de fé que Rosa possuía.

Certo dia, quando estava saindo para o pé do morro da praia, escutou um grito de seu pai. Obediente, voltou. Bêbado, Adailton pegou a criança, grosseiramente, pela gola da camisa e levantou, asfixiando como quem colocara medo de um não cumprimento.

– A PARTIR DE HOJE, VOCÊ VAI ACORDAR E IR À ESCOLA, NÃO TEM O QUE VER NA PRAIA ESSA HORA DA MANHÃ, MOLEQUE!

Emanuel continuou seus dias escondendo as lágrimas no sorriso. E em suas poucas horas de trabalho, quando encontrava alguém que ele enxergava estar no mesmo estado, soltava o riso e as lágrimas ocultas, para que o outro soltasse também.

Em uma sexta-feira, ele acordou angustiado e foi tentar ver o encontro do céu e o mar no pé do morro na praça, havia encontrado uma árvore, e ao subir, conseguia esconder novamente suas lágrimas, vendo o mar e a linha de encontro com o mar. O pé do morro, não importava onde, era sua fuga.

Nesse dia, ao voltar da barraca do Sr.Almir, ele escuta o barulho de uma ambulância em frente à sua casa. Haviam muitas pessoas na rua, ele já soubera o que poderia ter acontecido. Profissionais da saúde tentaram conversar com ele antes de entrar em casa, quando, antes de qualquer tentativa, dissera:

– Não me explique. Apenas me deixe entrar, eu sou forte.

  Emanuel viu, na cozinha, o corpo de sua mãe coberto, uma faca ensanguentada, seu pai algemado, bêbado, drogado. Voltou para a praia, para o pé do morro, onde dormiu, e no outro dia pela manhã foi ao velório, em casa. Rosa estava dentro de um caixão, sem nenhuma flor, como ele sempre havia visto na TV.  Correu e pegou todas suas tampinhas, cobriu, cuidadosamente, sua mãe com aquelas cores e sonhos. E, enquanto espalhava, ele conversava em silêncio: “Eu sempre soube que sua viagem seria primeiro que a minha, seu tempo de sofrimento era maior que o meu. Vá, Mainha, para onde a senhora conseguirá sentir a felicidade que nunca encontrou em vida. Nos encontraremos. Mas, antes, deixe-me roubar mais alguns sorrisos com os meus cheios de lágrimas, eu preciso ter um motivo de ter vindo parar aqui.

Após o enterro, Emanuel volta para o morro da praia de Ponta Negra. Foram tantas horas olhando o mar, que poderia se comparar à quantidade de lágrimas que teria para guardar em seu lugar secreto.

   Ele não saberia para onde iria na vida, apenas para onde voltaria.

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Tatyanny Nascimento

Tatyanny Nascimento tem dupla licenciatura em Letras: português e espanhol. Mestrado em Literatura pela UFRN, também possui especialização em Psicanálise, e algumas tantas pós-graduações: como MBA em Neurociência e Desenvolvimento humano, Neuroeducação e Neurociência do Comportamento.

Analista, professora, empresária, palestrante e escritora há 20 anos: contos, crônicas e poesias, atualmente, com seu primeiro romance em construção. Escreve, além de gêneros literários, ensaios filosóficos.

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