Londres – Inglaterra, 14 de Janeiro de 2018.
Ontem nos encontramos com Rony Sarkar, um amigo indiano que mora aqui em Londres desde o início dos anos 90. Ele nos levou gentilmente para conhecer alguns pontos incontornáveis da liturgia turística da cidade: o palácio de Buckingham (que achamos bem mirradinho para os padrões da aristocracia europeia), a Casa dos Lordes, a abadia de Westminster e a Câmara dos Comuns, com o Big Ben escondido por uma capa de andaimes que anunciavam uma reforma geral que (ironia das ironias) parece estar atrasada.
Rony foi, durante muitos anos, cliente de Ana quando ela era proprietária de uma imobiliária no bairro de Cidade Verde, em Nova Parnamirim. Ele foi um dos estrangeiros que “descobriu” Natal no boom turístico do início do século, se apaixonou pelo ar de fazenda litorânea que a cidade tinha naquela época e acabou adquirindo imóveis por lá.
Talvez seja o fato dele ser um sujeito do chamado “sul global”, nascido em um país que compõe (como o nosso) os BRICS, que fez com que as questões comerciais se transformassem em uma relação mais pessoal de cortesia.
Quando ele soube que iríamos para Londres fez questão de nos levar pra conhecer a cidade, que, depois de tantos anos, ele também sentia que era sua. Enquanto batíamos perna pelo Piccadilly Circus e depois pelo Hide Park, ele reforçou que fazia questão de pagar um jantar pra gente num restaurante que costumava frequentar quando trabalhava na City fazendo contabilidade para bancos e incorporadoras financeiras, uns dez anos atrás.
O fato do restaurante ser paquistanês me deixou curioso, tendo em vista o que sabia acerca do histórico de animosidade entre as duas potências nucleares asiáticas.
___ Bobagem – disse Rony – somos um mesmo povo, comemos praticamente a mesma comida, só temos religiões diferentes.
O tal restaurante fica em East London, a mesma área que, no final do século XIX, assistiu os assassinatos de Jack, o estripador. Na época funcionava ali uma zona de prostituição e cafetinagem, que se espalhava atrás da London Bridge, famoso centro de detenção e tortura do civilizado e liberal regime monárquico inglês.
Na época em que o famigerado estripador atuava naquelas ruas sombrias, parcamente iluminadas por lampiões a gás, aquela zona da cidade era ocupada pela comunidade judaica, que, lentamente, começou a ser “expulsa” do local, já na segunda metade do século passado, com a chegada de levas e levas de imigrantes indianos (como Rony), paquistaneses, tailandeses, iraquianos, sírios e de vários outros países asiáticos.
Ao andar pelas ruas daquele lado da cidade, que parecia ser pouco frequentado por turistas, senti que estava em qualquer outro canto do mundo, menos na Europa. Há um restaurante asiático a cada metro quadrado e de vez em quando surge, do nada, uma mesquita, posta ao lado de grandes prédios de escritórios e de condomínios residenciais. Com o tempo, a área começou a atrair artistas, músicos, gente de TV e de teatro. A gentrificação foi inevitável, especialmente quando a elite branca que trabalhava na City começou a se mudar para os condomínios da vizinhança. Hoje, segundo me conta Rony, East London é o lugar da cidade onde “as coisas acontecem” e o espaço mais cosmopolita e multicultural da capital inglesa.
Não é à toa que tanta gente da Ásia, da África e do Caribe tenha chegado por aqui e se instalado nesta região. As grandes metrópoles tendem a ser mais abertas à influência estrangeira e geralmente são nas pequenas e médias cidades do interior, junto às comunidades esquecidas e empobrecidas pela globalização neo liberal, que as forças xenófobas da extrema direita parecem frutificar na Europa atual. Não é à toa que foi justamente nessas periferias onde o movimento do Brexit (que pedia a saída do Reino Unido da União Europeia) nadou de braçada.
Àquela altura da viagem, Londres não parecia me oferecer uma visão da “Inglaterra raiz”. É bem certo, amigo velho, que para se conhecer um país é preciso se afastar de suas capitais e mergulhar mais profundamente em seu interior. Isso me pareceu ainda mais verdadeiro quando o país em questão é o que sobrou de um império moribundo.
O Reino Unido de hoje é bem isso mesmo… a sobra de um dos maiores impérios que a humanidade já conheceu e, de longe, um dos maiores poderes navais que já existiu no planeta. Os ingleses, esses cangaceiros do mar, descendentes de vikings, dominaram os oceanos da terra por cem anos, desde que destruíram a frota combinada da França e da Espanha na batalha de Trafalgar, durante as guerras napoleônicas. O controle do mar levou aqueles rudes cangaceiros náuticos, vindos de uma ilha perdida no fiofó do Atlântico norte, a expandir sua dominação até sobre civilizações milenares, extremamente sofisticadas, como as do Egito, da China, da Pérsia e da Índia (do nosso amigo Rony). Para os orgulhosos povos da Ásia e da África esse foi o grande vexame de um século de vergonha.
Se você vier a Londres e quiser ver o espólio do saque colonial que esse império marítimo protagonizou, sem dúvida, o melhor lugar é o Museu Britânico. Providencialmente, ele fica a apenas poucas quadras do nosso albergue, aqui em Bloomsbury, o que nos fez acordar cedo hoje e, logo depois de comer o “feijão da manhã” (sim… eles fazem isso no desjejum), com ovos e bacon, sair para visitar o museu.
Por ali a gente encontra quase tudo das velhas civilizações da humanidade. Sumérios, acádios, egípcios, múmidas, maias, astecas e polinésios… praticamente ninguém escapou da gigantesca recolha de fragmentos da história e artefatos arqueológicos protagonizados pelos milicianos servos da rainha.
Como hoje era Domingo e o dia amanheceu sem chuva, o museu estava completamente lotado. Uma verdadeira procissão de gente entrava e saía das suas salas lotadas, especialmente as que continham sarcófagos mortuários do antigo Egito ou peças da antiguidade greco-romana (dois lugares comuns da arqueologia de massas). A fascinação das pessoas com as técnicas de mumificação e com toda mitologia que envolve o universo dos mortos no mundo dos faraós deve justificar essa procura.
Eu, particularmente, fiquei mais impressionado com os registros mesopotâmicos, especialmente com os frisos e os alto relevos que ornamentavam os palácios babilônicos, persas e assírios. As representações arcaicas de divindades com Ishtar, Marduk e Shamash (a deusa feminina do sol) me chamaram tanto a atenção, quanto as tabuinhas de argila com a escrita cuneiforme, contendo (provavelmente) relatórios de entradas e saídas de sacas de trigo nos zigurates espalhados pelas margens dos rios Tigre e Eufrates.
Para mim, que sou fundamentalmente um escritor, um contador de histórias, foi particularmente emocionante estar diante de artefatos da escrita que serviu para o registro da Epopeia de Gilgamesh (a obra literária mais antiga que se tem notícia). Também fiquei emocionado em estar diante das primeiras representações de Isthar dos Caldeus, a deusa arquetípica, mistura de Afrodite com Atena, que pode ter, se metamorfoseado também em Ísis, por meio de fusões sincréticas ocorridas na área do Levante.
Aliás, por falar em Ísis, é fascinante ver o processo de “romanização” da deusa, que era representada no começo como uma mulher alada (como a própria Ishtar dos babilônicos ou a Inanna, dos sumérios) e que aos poucos vai sendo figurada com vestes romanas e antropomorfizada para se tornar, segurando o filho Hórus nos braços, na imagem que serviu de modelo para os ícones cristãos (católicos e bizantinos) de Maria Santíssima carregando o Jesus menino nos braços.
O que aquelas imagens, espólio do saque colonial que os britânicos protagonizaram, me alertavam, era que as formas culturais e simbólicas da humanidade são fluídas e permeáveis. Assim como nas ruas de East London, cheias de vozes de outros povos e sotaques de outras terras, por mais que os adeptos do isolacionismo político insistam em fechar fronteiras com seus brexits.
Para aqueles que pensam que os pedaços do mundo que a Inglaterra guarda sejam apenas os fragmentos arqueológicos das antigas civilizações espoliadas, as ruas asiáticas que hoje ocupam o lugar da antiga Londres das prostitutas e dos assassinos seriais, parecem indicar que o rebote de todo império sempre vem, em algum momento, cobrar seu preço… antropofagicamente, vale ressaltar, como poetava Oswald de Andrade.
