Redinha arredia

A Redinha é uma ilha cercada de sentimentos. De um lado, é banhada pelo azul do mar e, do outro, pelas águas do Potengi salgado. Quando andou pelas areias da Redinha, ao lado de Cascudo, o escritor Mário de Andrade ficou encantado com a tranqüilidade infinita do lugar. No livro “Turista Aprendiz”, o poeta modernista relata a monotonia da Redinha, sonhando com a travessia de barco, cruzando o rio num dia de sol forte de verão.

A praia da Redinha é porto pesqueiro quando cada manhã é recheada de jangadas ao sabor do mar, onde o pescador faz pajelança nas gamboas do Potengi, jogando sua tarrafa e apanhando na água sua porção de sobrevivência. A Redinha também é território livre para poetas, artistas e boêmios, que buscam inspiração em verso e prosa para cantar os alumbramentos dessa paisagem marinha.

Para se chegar à Redinha de carro, deve ser feita a travessia pela velha ponte de ferro, cruzando os manguezais dos Igapós, taba dos índios Potiguares e do guerreiro-chefe Poti, até chegar às dunas móveis de areia fina, onde cresceu o vilarejo próximo ao rio e o mar. Para os visitantes incautos, a majestosa ponte Newton Navarro, rasgando o Rio Potengi, é a certeza de breves alumbramentos enquanto navegam em direção a Redinha.

Para conhecer a Redinha, é necessário saborear uma ginga com tapioca, especiaria culinária tradicional no Mercado Público, enquanto observa o burburinho do povo que passa. É preciso celebrar a “Festa do Caju”, no Redinha Clube, quando janeiro chega, anunciando uma nova época de fartura nos quintais e alpendres, onde preguiçosas redes embalam o sono de pescadores e veranistas.

Para louvar a Redinha, é indispensável seguir a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, saindo da igreja feita de pedra preta do mar pelas ruas do vilarejo ou acompanhar a santa pelo Rio Potengi, a partir da antiga capelinha. E no fim de tudo, ver o encontro das duas santas em momentos de epifania coletiva, como se as benção da santa fossem suficientes para encher os corações de fé.

Para exaltar a alegria da Redinha, é preciso tomar um banho de mar num domingo de sol, quando o povo simples distribui cores e sons pelas areias escaldantes da praia. Em dias de carnaval, seguir as troças “Siri na Lata” e “Baiacu na Vara”, além de se esbaldar, todo melado de lama, na irreverência do bloco “Os cão”, na terça-feira gorda.

Para o poeta ensandecido Plínio Sanderson, habituado a fazer versos livres que cantam a cidade, a Redinha continua arredia ao progresso, preservando suas tradições e afugentando o fantasma do monumento bestial de concreto que cresce nas entranhas salobras da Boca da Barra, querendo roubar os mistérios do rio e do mar.


FOTOS: Alex Gurgel

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Alex Gurgel

Fotógrafo e viajante

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