POETA DA SEMANA: Ruben G Nunes

Ruben G Nunes é carioca nascido em 1937 e radicado em Natal há 50 anos. Já recebeu o título de Cidadão Natalense. Hoje aposentado, foi professor de Filosofia (Ética, Filosofia Política, Metafísica) da UFRN. É talvez o autor mais premiado do RN, nos gêneros do romance, conto, poesia, crônica, além do único autor que, até agora, foi premiado quatro vezes no que é considerado o maior prêmio de literatura do RN, o Câmara Cascudo. Seus romances são todos ambientados em Natal.

Venceu o Prêmio ‘Cinco Contistas Potiguares’ (1975), da Fundação José Augusto, com o conto: “Humanóide Trijatóide”. Em 1978 e 1979 recebeu menção honrosa no Prêmio Câmara Cascudo com o romance ‘Fragmentos de Candelária’. Em 1981, primeiro lugar no mesmo prêmio com o romance ‘Gestos Mecânicos – um romance urbanóide’. No ano seguinte, venceu novamente o Câmara Cascudo com o romance ‘Dotô, casa comigo? – um romance esquizoide’.

Em 1997, venceu o Concurso Conta Natal, com o conto ‘Última Década’. Em 2000, já no gênero poesia, recebeu menção honrosa com ‘Um dia eu caio pra cima’, postada aí abaixo. Em 2004, outra menção honrosa, desta vez no Concurso de Poesia Luis Carlos Guimarães, e foi classificado entre 15 poetas para publicação da antologia “15 Poetas do RN”.

Em 2007 vence novamente o Prêmio Câmara Cascudo com o romance ‘O Ponto Oco – romance do ser-em-si fora-de-si’. Em 2011 vence o Prêmio Literacidade, de âmbito nacional, com a crônica ‘Estação dos Sonhos Perdidos’. Volta à poesia em 2015 entre os 20 selecionados do Prêmio Américo de Oliveira Costa, com ‘a metade da metade da metade’, para publicação de livro digital pela EDUFRN. No mesmo prêmio é classificado com três crônicas entre 21 selecionadas para publicação digital.

Em 1972 fundou o jornal cultural alternativo “O Sistema”, junto com Tom Silveira e Enoch Domingos. E tem inúmeros textos publicados em jornais alternativos e tradicionais de Natal, como A República.

Vale publicar por aqui os dizeres de Cascudo sobre a poesia de Ruben G Nunes, primeiro colunista desde Papo Cultura:

“Uma Poesia hostil e lírica, bravia e sonora, com arrebatamento e ternura, vibração e entendimento da motivação esparsa e sedutora, trovejando em tempestade e florescendo em compreensão afetuosa. Essa mensagem não é canção ao luar ou elegia romântica. È voz alta e máscula, transmitindo as fortes imagens de uma mentalidade viva ao clarão do dia em que os Homens reconstroem, com energia generosa, seu Mundo interior, utilizando os destroços das Cidades que o Tempo matou e a obscura e poderosa movimentação subconsciente. Uma tonalidade nova na orquestração tradicional, acima dos níveis habituais do Comum. Esses Poemas não podem ser cantados ao violão, mas lidos de pé, emocionalmente, no ritmo da Hora Presente” (Introdução de Tempos Humanos, poesia, 1973).

Ruben G Nunes é nosso POETA DA SEMANA:

—————

UM DIA EU CAIO PRA CIMA

um dia eu salto daqui
e caio numa estrela

nesse dia não terei conta bancária
nem cheques a descoberto

nesse dia não terei partido político
nem título de eleitor

nesse dia não haverá religiões
nem projetos, nem processos
nem mesmo terei a camisa do flamengo

um dia eu pulo daqui
e caio naquela estrela

nesse dia não terei hora marcada
nem dívidas, nem dúvidas

nesse dia não terei amigos, nem filhos
nem mulheres de mi vida
nem mesmo mulheres da vida

nesse dia não terei saudades
e todo os desamores estarão quitados

um dia eu caio pra cima

– e nesse dia –

já não terei um copo
nem um corpo
nem teu corpo

mas meu sorriso-cachorro estará nesse sol
queimando teus desejos

meu olho-doido
estará nessa lua
deslizando teus sonhos de anjo e mulher

e minha carne-inquieta estará nesse mar espumando em ti

(publicado na Antologia “VI Prêmio Escriba de Poesia – 2000” – menção honrosa no VI Prêmio Escriba de Poesia – Prefeitura Piracicaba SP)

—————

ODE À CALCINHA DE FIM DE SÉCULO

neste bar de fim de século
te colocarei
intensamente
sob meu olhar
e mesmo que não queiras
vou te penetrar
olho-nas-coxas
olho-entre-coxas
farejando
focinhando
direto e conforme

neste bar de fim de século
te olho e desolho
entre lances e relances
olho-entre-coxas
olho-entre-pernas
vou penetrar tua carne
feita de sombras e detalhes

neste bar de fim de século
cervejando
copo espumando
entre ângulos e triângulos
te olho e desolho
desejando te beber
e linguar
dos pés à cabeça
do ânus à vagina

neste bar de fim de século
te olho e desolho
olho-duro
olho-na-coisa
desejando invadir
desde o ponto g
ao ponto oco
e me deixar sugar
em teus olhos
em teu som rouco
em teus mistérios absolutos
em tuas questões relativas
e te imaginar
vento e tempestade
porto e praia
abismo e vôo

neste bar de fim de século
meu safado olho de pásión
olharvasculha
lambe-e-chupa
tua calcinha cor-de-rosa!

—————

ORAÇÃO DE CERTAS MANHÃS DE INVERNO

Que essa mulher permaneça en mi vida
como o sol permanece em certas manhãs de inverno

Que sua combustão interna transborde em mim
como chamas de todos os apocalipses now-and-ever
e que no último passo da manhã
ainda sejamos carne-e-sonho
tempestade e nuvem mansa
cáos e paraíso
desespero e riso

Que venha com todas as suas lágrimas
e mistérios de bolsa de mulher
na magia irresolvida de coisas nervosas
na fraqueza poderosa de vulcão em férias

Que venha com seu olhar-fascínio
e deixe nele deslizar minhas ilusões perdidas e achadas

Que venha naquele andar vaginal
que se alonga na música antiga
e faz estancar a vida

Que venha leve louca nua
com seus mil braços de deusa e bacante
e danse comigo o último bolero

Que venha inesperada e definitiva
fazendo de cada momento
um voo de gaivotas no infinito

Pois é absolutamente preciso que
o encantamento nunca morra
e que a paixão ainda mova
tempos e emoções

—————

VELHASCARIA LIMITED.

rugas riscam
estrias rabiscam
papadas estufam
dores-de-cotovêlos trollando musiquinhas
d’arrêgos e xifrâncias

velhascarias perdidas no tempo…
o olhar trisca trampa trepa
o abraço gadunha e sarra
barrigas rolando amassos
beijos babando desejos perdidos

onde as rosas? o vôo das gaivotas? o beijo desvairado?
onde as loucuras de ontem?

… nos olhos cantienrugados deslizando luas ainda
… nas pelancas enganchadas no tempo
… nas pregas vadias repuxando lembruxas

… na loucalingualinguando fazendo-gozar….
… o gôzo de ternuras idas antigas curtidas idosas…
… imensas no tempo

—————

AINDA TE SINTO

ainda te sinto
ainda te sinto nua e ávida
ainda te sinto desde muitas vidas
desde a quebra do tempo
que nos uniu e desuniu

e através do tempo e das circunstâncias
retorno meu afeto pleno de ti,
lembrando cada gesto,
cada olhar,
cada palavra,
cada nesga delicada de teu corpo
cada gemido fremindo de gozo
cada sintonia de tua alma
tocando minh’alma
e se derramando pelo teu longo cabelo de fogo

ainda te sinto
ainda sinto teus lábios de pétalas e estrelas
tua mais íntima carne de sonho
ainda te sinto desde ontem
desde o silêncio dos tempos
que nos uniu desunindo
e me fez sentir que a Vida
é triscar infinito de teus olhos no meu

About The Author: Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

Comentários

  • Reply Ily Maros

    História de vida que se imbrica com as estórias da grande Natal. Parabéns! ” Um dia eu caio pra cima.” – Sarcasmo realista! Muito bom!

  • Reply Anildo TUCO

    Parabéns Rubão pelo reconhecimento.

  • Reply Lucia Melo

    Excelente as poesias!
    Tudo na vida…

  • Reply AlessandraGN

    poeta da vida
    alma aventureira
    coração inquieto
    transbordante
    amor multiplicante

  • Reply Ily Maros

    … história de vida que se imbrica com as estórias da Grande Natal.
    Muito legal! “Um dia eu caio pra cima!”….

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *