POETA DA SEMANA: Radyr Gonçalves

Radyr Gonçalves tem 40 anos, é brasiliense, radicado em Natal e pensa em morar em Marte. É Terapeuta Holístico (conversa com os extraterrestres, com os gnomos e as ninfas), é compositor de jingles e locutor. Escreve desde os cinco anos de idade. Infelizmente nunca teve a pretensão de publicar nada oficialmente e ama a poesia, especialmente a poesia portuguesa. É um observador das cenas urbanas, dos olhos e das auras das pessoas. Fala em seus poemas das coisas comuns que norteiam o cotidiano rotineiro. Um desses poetas que precisamos conhecer e apreciar mais.

Radyr Gonçalves é nosso POETA DA SEMANA

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CAMISA POOL

Eu e minhas estranhezas
Sai do barraco
Pulei de um barranco
Ando livre, leve, manco
Ando procurando moitas
Camuflando-me em meio aos versos

Desviando-me vez por outra
Das flechas
Dos fleches
Dos muitos avexes
Dos buracos
Das pedras
Das anunciações do fim de mundo

Eu e minhas cruzes
Apago as luzes
Acendo as velas
Reacendo ritos
Danço, escrevo, agito
E paro no trilho

Tenho um plano de viagem
Um plano para a estiagem
Para a falta de inspiração

Arrumo as malas
Sem norte
Rumo ao sul
De calça jeans
Camisa Pool…

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CIRANDA DAS RIMAS

Abram a cortina
Nem tudo termina

Há ouro na mina
Ainda há rima que rima com rima
Por exemplo: lima

Lima, limão
Espuma, sabão

Água, gasolina

Abra a cortina
Menino, menina

Há lixo nas latas
Ratos, mosquitos, baratas

Livros livres nas estantes
Poesias
Drummond
Neruda
Quintana

Cora, Coralina

E uma obra infinda…

Nem tudo termina
Mas fechem as cortinas
E vamos dormir.

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GIRASSÓIS ALBINOS

Tinha uma plantação de girassóis albinos no meu quintal
Morreram ao saber que vou morrer
Sobraram os galhos secos, o corvo empalhado no alto do lírio
Minhas últimas pisadas frias – tão suaves, quase invisíveis…

Deixei escrito poemas deformados
Críticas, jornais vencidos e um pouco de mel
Eu sempre fui doce
Embora não dance
Eu sempre fui leve com os pés e com as mãos

Surrupiei do céu meu último pôr do Sol
Juntei o esqueleto do dia
E parti carregado
Como quem carrega o mundo nos costas

O mundo pesa demais, rapaz!
São fardos de dias
Fardos das noites
Fardos que vão deformando a coluna…

Deixei escrito uma receita de café especial
Um pequeno tratado das minhas descrenças
Apontamentos, rascunhos desconexos
Um livrinho escrito sobre a coragem de prosseguir
E algumas sementes de girassóis albinos
Que um menino desconhecido passou por aqui e deixou…

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O LOBO ATRÁS DA CORTINA

Radyr, não procrastina!
O lobo atrás da cortina não costuma perdoar…

Cumpre a sina
Assassina
O medo
E ensina
Esse corpo a voar…

Está a sua disposição
O ar, o tempo, o chão
A arma de guerrear

Radyr,
Instintivamente grite
Agite
Corra
Antes que a alma morra
Sem sair desse lugar…

Radyr, não procrastina!
O lobo atrás da cortina não costuma perdoar…

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QUANDO FLUTUO SOBRE PARIS

Falo de curiós
Do carimbó dos anjos
Do passe, do passo, do laço mágico
Do cômico, do rito, do trágico
Do meu momento de aguda loucura

Aquele momento em que saio do corpo
E flutuo sobre uma Paris que criei
Um misto de Machu Picchu e Gizé
Em que fins de tardes tons pastéis sejam comuns
E a melancolia é a apenas charme francês
Tristeza filosoficamente cabível…

Falo de sabiás
Do ás da sorte
De Júpiter, de Arcturus, de Marte
Da morte das coisas inúteis
Fúteis, inférteis, voláteis…

Aquele momento em que pondero
No caos do meu desespero
E então saiu pela janela
Feito uma pipa biruta
Sujeito que perscruta os horizontes
E cria numa tela
Mundos coloridos, cidadelas
E assim fingir ser feliz…

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METALINGUAGEM

Um poema pós-escrito
Modernoso
Cheio de pós-verdades
Estupidamente reto

Cientificamente planejado
Metodicamente pesquisado

Flutuante – anuviado
Temporão
Poema cabalístico
De sertão

Um escrito que nada diz
Mas que vem com bula
Anula –
Falaremos da mula
Da gula, da Gretchen, da Sula
Da greve dos taxistas
Do sono dos caminhoneiros

O que é a metalinguagem?
Perguntam por sacanagem

A metalinguagem é a palavra
Dando uma de Narciso
Prendendo o choro
Amarrando um riso

A metalinguagem não fala mal de ninguém
(Ninguém existe, pra essa triste!)
Aleluia, glória, amém!

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A COISA AMORFA

O verbo amorfo
Que não veste terno
Que ainda não existe
Que não é eterno
A menina louca
O cristal, a louça
A maçã mordida
A morte, a vida
O descaminho
O pergaminho em branco
O político, o saltimbanco
A verdade oculta
A moça, a virgem, a puta
A grei, a grave, a luta
O verbo sem forma
O pão fora da forma
A notícia que não informa
A pérola azul de um poema
A insensatez de Beatriz
A loucura de Alice
O endereço da meretriz
A coisa amorfa
A gota que transforma
A água fria, a mulher morna
A Lilith que desabrocha
A Eva que queima na chama do cio
A dupla fenda que abre-se
A mão dupla do sossego e da agonia
O breu, a brasa, a mãe, a cria
A coisa amorfa: poesia.

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POEMA PARA RESUMIR MINHA VIDA

O proêmio da existência
A história dos meus 206 ossos
Da minha carne, da minha pele
Do nariz da minha alma

Lembro-me como agora
Era azul, aurora, dia
Quando o anjo que a tudo espia
Não brindou minha luz

Não proclamou meu nome
Não fez-me poeta
De imediato
(nunca fez, de fato)

Não tomou nota em nenhuma ata
Não festejou-me em nenhum ato

Eu era apenas um rato
No Hospital Distrital do Gama
Olhando o branco do teto
O cismar silencioso da cama

Comecei ali a minha história
Nada demais aconteceu
Vaguei dias – semeei noites – rezei nos breus
Colhi olheiras
Versos de cabeceira
Poemas de gaveta
Santas mentiras dos hebreus

Adquiri um vazio frio
Não obstante
Um sol rodeia-me
Emoldurando-me de raios

Sou um rascunho de anjo
Projeto de menino
Que nunca se fantasiou de homem
Pelo simples medo da guerra

Eu sou alguém que para não fazer peso na terra
Aprendeu a levitar

Que poetiza para não chorar
E que mora de favor
Entre nuvens de um alvor
Bem parecido com o branco do teto
Da maternidade do Gama
Quando eu espiava da cama
O anjo que a tudo espia
E nada faz…
Não é anjo de guerra
Nem anjo de paz
É um inútil…
Comedor de biscoitos de polvilho.

About The Author: Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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