POETA DA SEMANA: Luiz Manoel

Luiz Manoel de Freitas é natural da Paraíba, mas desde cedo mora em Natal. É odontólogo, licenciado em Artes com especialização em Planejamento do Desenvolvimento Social/UFCE. Em 2003 oficializou a fundação do Projeto Reviver, que continua à frente exercendo o papel de Superintendente Técnico, como voluntário. Dedicou-se a literatura e escreveu os livros “Reviver: Mensagens e Poemas”, “Voltando as Origens” com Sheyla Maria Ramalho Batista, “Vida…aos pedaços”, e “Vastas Emoções”. Em 2014 organizou e lançou a coletânea “Caderno de Poesia Pirpiritubense e Varzeana”, constituído por 11 poetas de Pirpirituba e um de Várzea/RN, cidades onde a ONG desenvolveu trabalhos voltados para arte, cultura e cidadania. Com lançamento agendado para este mês de setembro está um KIT Literário composto pelos quatros livros já lançados e três livros inéditos: “Quatro em UM – Síntese” formado pelas obras já publicadas e os novos “Em Busca de Si Mesmo”, “Reviver: Vol. Dois e 4” e “Cartas e Mensagens (não) Enviadas”. Luiz continua sua luta altruística como voluntário até o presente, atuando através do Projeto Reviver, atualmente em parceria com a Escola Estadual Nestor Lima, no bairro de Lagoa Nova.

Luiz Manoel é nosso POETA DA SEMANA

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NOSSOS LIMITES

É possível viver no limiar do sentir,
na ávida ânsia do sentir prazer,
na perspectiva de encontrar o amor,
na constante luta para evitar morrer.

Talvez encontremos todos, um dia, por aqui,
o caminho certo que vivemos a procurar,
sem precisar esconder, nem sequer fugir,
estrada afora do nosso caminhar.

Se só alegria houvesse no viver,
não teria o dia sua parte na escuridão,
teria um permanente alvorecer,
e nem os poetas falariam em solidão.

As flores abririam a toda hora;
teríamos cravo, lírio e rosa a brotar,
a terra úmida seria aquecida, sem demora,
favorecendo novas sementes a geminar.

E nós, homens frágeis, ricos de impurezas,
externaríamos o mais íntimo de nosso eu,
expondo nossos limites, nossas fraquezas,
apesar de imagem e semelhança do Divino Deus.

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NÃO ESTOU SÓ

Agora a falta não é mais problema. Agora eu já acostumei com a minha solidão. Agora o que me toca não é falta física. Agora, se choro é apenas pela saudade, que me enche o peito, pelo vazio que incomoda a alma. O espaço, já conclui, pode ser preenchido. O isolamento, em geral, é gostoso.
Agora já não vivo mais só, mas sim comigo.

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O HOMEM

O homem herda, mas constrói sua guarida.
O homem chora, mas consola sua amiga.
O homem vibra ao saber que gerou uma nova vida.
O homem luta quando precisa da disputa
O homem busca e encontra novo espaço.
O homem ri quando encontra o seu abraço.
O homem é, muitas vezes, sem querer.
O homem mata em alguns casos para viver.
O homem dorme para viver o amanhecer.
O homem ama quase sempre para sofrer.
O homem dá também para receber.
O homem nasce na certeza de morrer.
O homem chega, faz a mulher desfalecer.
O homem some, deixando marcas para doer.
O homem arde no quente fogo do prazer.
O homem fala com vontade de induzir.
O homem chora, grita, abraça, beija, ama,
para a fêmea seduzir.

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INSÔNIA

Tome-me nos braços e ponha-me na cama.
Beije-me o corpo inteiro, não necessariamente na boca.
Nas orelhas, nos dedinhos ou no dedão.
No pescoço, no dorso ou no final da espinha dorsal,
Mas deixe-me dormir

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PRIMEIRA VEZ

Por que isto descobri?
Melhor não tivesse entendido, me sinto agora bandido,
Tenho medo de pecar.

Sei como se faz o amor, sei também e com pavor,
Que Deus, a mim reservou
Um momento para amar.

Já até lhe conhecia, um sentimento sentia, lá dentro do coração,
Só não sabia que quando o corpo todo tremia,
e o órgão da gente crescia, isto se chamava tesão.

Pensei que já estava pronto,
Tentei no primeiro encontro, foi grande a decepção.
Senti uma tremedeira, incomodei a companheira,
Pensei que ia parar,
Mas quando voltei a mim,
Descobri que aquele festim
Se denominava gozar.

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“SIMPLES HOMENAGEM”

Pirpirituba, de serras e de cachoeiras,
Apesar de estar distante, um instante não te esqueci,
Quero te homenagear, ó minha terra querida,
De gente boa sofrida, onde a infância vivi.
Teus sítios, rios e montes, teu povo e ruas serenas,
Nas madrugadas frias te lembro com exatidão,
Das festas de São João, São Pedro e Santo Antônio,
Folguedos, quadrilhas e músicas,
Era grande a brincadeira, mas é a festa da padroeira,
Que não se pode esquecer, com bilhetinhos ” a você” e com música oferecida, que se ouvia sorrindo, querendo adivinhar, quem foi que resolveu sua paixão declarar.
Teus carnavais do passado, tua fé na procissão,
Com imagem de Sebastião, cravado com muita espada,
Nas ruas toda a moçada,
Por ser grande a devoção àquele santo querido.
Em teus dias de inverno, a rua sempre alagava,
A criançada brincava com muita satisfação,
Na lama se lambuzava, a tanajura chegava,
Para servir de avião.
As tuas campanhas políticas, eu lembro bem, não esqueço, ainda hoje estremeço, em pensar nos tais discursos,
Que parecia um furdunço quando se queria falar,
Maldizer ou reclamar não carecia de adereço,
Frente e verso e pelo avesso, a lama estava no ar.
Saudade é o que sinto e posso bem afirmar,
Se pudesse renascer queria ser filho de lá,
Naquela rua bem larga queria ainda correr,
Com os meus manos lá viver e com os mesmos pais a morar,
pois se não fosse por eles e por esta cidade querida,
A minha infância vivida não me valia lembrar.
Pois foi em Pirpirituba que sobre o junco dormi,
O bê-á-bá aprendi e me tornei o que sou,
Guardando todo este amor, para um dia externar,
Quem nasceu em Pirpirituba não ama outro lugar.

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ACASO

Acaso sentasse na beira da calçada, e não à beira da estrada, olhasse aquela moçada, brincando, dançando, jogando suada, Saudades viesse do tempo, em que menino sorrindo, correndo também ao vento, não tinha qualquer desalento, saudades não estava a sentir.

Quem sabe pudesse voltar e mais uma vez corresse a jogar, se não com a bola que iria rolar, mas com a vida que está a viver, que tanto nos põe pra correr em busca de novo viver, querendo mais amor encontrar, na noite, no dia, no alvorecer.

Possível seria dizer, em verso, em rima ou em prosa, se é bom o que se faz, a vida não glosa, transforma a feia em mimosa, se ela não causa sofrer.

Seria, quem sabe, em versos, pudesse cantar o reverso da vida, e em manifesto, com coragem viesse a escrever, o quanto foi lindo o momento, vivido feliz sem lamento, podendo agora dizer, que sem medo de um dia morrer, encontrando o caminho certo, de corpo e alma abertos, e pronto para abraçar, a brisa, o sol e o mar, a luz que pude antever, na estrada ou naquela calçada, que sentei pensando viver.

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SE… ESPEDAÇÁSSEMOS A VIDA

Se espedaçássemos a vida em itens,
blocos, em partes.
Se repartíssemos a vida em ritmos,
em notas, em laços.
Se estraçalhássemos a vida em bandas,
ao meio, em quartos.
Se dividíssemos a vida em cortes,
em lotes, em faces.
Se esfaqueássemos a vida em lâminas,
em tiras, em lascas.
Encontraria, sem dúvidas, a vida,
Sem membros, sem corpo, sem braços.
E se da vida contássemos, escrevêssemos, relatássemos, a vinda, a ida, o chegar;
Revelava o sim, o não, o talvez
A fé, o ódio, a altivez, cantando vivas aos mortos com todos os porquês; trazendo à tona, jogando ao espaço, em parcelas, em tacos, em xadrez,
Um pouco da vida aos pedaços.
Os pedaços em partes revelam,
O mais simples da vida singela,
Do mais árduo da vida que é dura,
O mais doce da vida, a candura,
Suportando o quinhão da vida que é dor,
E vivendo, no entre meio, à parte – esplendor,
Passo a passo na estrada da vida com ardor,
Para encontrar: O PEDAÇO CHAMADO DE AMOR

About The Author: Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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