POETA DA SEMANA: Adélia Costa

Adélia Costa é natalense criada pela sua mãe artesã, Conceição de Maria da Silveira, em Cidade da Esperança. Ainda no Ensino Médio, a poeta se destacou em prêmios literários nacionais com um conto sobre a vida e obra de Castro Alves e um cordel sobre Câmara Cascudo. Hoje é mestre em Literatura. Seu lado poético aflorou há dois anos, com poesias já publicadas na Folha Poética e na Revista Eletrônica Kukukaya.

Há alguns anos, ela tem realizado o “Sarau Poético Vozes, Sons Rimas” e a “Mostra Cores Poesias” realizados, simultaneamente, com contribuições de moradores voluntários do condomínio em que mora. A sua participação na Sociedade dos Poetas Vivos e Afins (SPVA/RN) é recente, contribuindo como Diretora de Comunicação do grupo. Sua maior poesia são seus dois filhos.

Adélia Costa é nossa POETA DA SEMANA

—————

CONFLITO

A minha poética é tão cheia,
Que chega às vezes a existir…
E percebe o quanto é vazia…
Ao se negar numa rima

Haja cores com flores,
Amar olhando o mar.
Haja versos brancos, barrancos…
Em silêncio a cantarolar

Um dia encontrou um poema
Quão grande o seu dilema
Quão difícil o seu poetar

Reconheceu ser só um espectro…
Do tipo inexistente cavaleiro
Então, cavalga sem sair do lugar
Existe, mesmo que presa,
Inexiste, mesmo etérea a vagar

Quem sabe um dia,
Ela se despenteie
E resolva enfim o que quer
E faça um baita poema
Daqueles com versos e trema,
Expondo todo o dilema
De quem nasceu para ficar!

—————

DESCORTINAMENTO

Os teus personagens hoje,
Esqueceram as tuas viagens
Miragens…
Para comigo falar!
Tiraram tuas máscaras,
Entregaram os teus palcos…
Disseram-me que em teus parágrafos,
Havia menos verdade que numa ficção..
Impossível verossimilhança…
Teus personagens estavam cansados
De tanta prosa…
Não queriam mais tuas glosas
Nem tuas conversas longas
Querendo ser clássicas histórias!
As tuas letras sem rima,
De caligrafia tortuosa,
Os deixaram em colapso.
Desejam distância…
Aposentadoria!
Não compor teus cenários!
Querem mais nenhum laço…

—————

NÓS

Teu corpo, meu corpo
Cópula, perfeição
Muito-pouco: imensidão
De almas e líquidos: encontro
Juntos: infinito e limite
Aurora, eclipse, clarão
Oh, que bela paisagem
Mãos, lábios, verdades
Amor em habitat
Alinhando planetas ‘meusteus’
Quão suave o trêmulo sussurro
Contrariando a performance
Produzindo órbitas
Momentos únicos
Momentos mágicos
Apagando o trágico
Versificando poemas
Fim do caos
Houve luz
E tudo se fez renovo
Nós

—————

HÁ ESPERANÇA?

Eu vim para derramar vida!
Ecoava uma voz mágica, aveludada…
Enquanto o cheiro da morte
Alastrava-se nas ruas e vilas.
Esparramava-se sem pedir licença,
Sem dó, ceifava inocentes vítimas.
Eis o ringue: a luta vida-morte!
E no fim… muitos zumbis sobraram,
Corpos vazios que perambulavam velados,
Na esperança de encontrar aquela voz!
Há esperança? Quem sabe?
Talvez assim tornem-se livres,
Enfim livres de seu tórpido algoz…

—————

DESPEDIDA

Quando geme a alma
Pela dor da partida
Do tipo sem despedida
Onde as horas se dissipam,
Os pulsos não mais sinalizam
E as lágrimas transbordam…
Sentimos que tudo é vaidade
Que o ontem é a melhor saudade
E que a vida é sempre um adeus
Daquilo que nos aconteceu
Afinal, é real a fugacidade
E quando percebemos
A nossa completude se foi
Nos laços de amor e amizade
Viver é dádiva maior
Mesmo que para isso
E durante todo o caminho
Seja preciso despedida e saudade.

—————

SEGREGADOS

Ser cão sem plumas…
Ser rio sem lua,
Ser meandros ao anoitecer…
Segregado!
Aonde anda os teus?
É de pó como os meus?
Os becos sem saídas,
Os ossos em que viveu,
Tornaram secos riachos Zeus!
Aonde estão os brios teus?
Andarilhando com os meus?
Tudo em mim arde:
A ausência da paternidade,
A tua presença saudade,
E tua ausência natividade.
De um rio secante,
Teus parentes são errantes.
Tão perto distantes…
Plumagem em orfandade
Rio sem irmandade,
Sangrante erosão!
Murcham suas plumagens,
Hidrografia triste:
Juntos, segregados em solidão!

—————

ENCONTRO MARCANTE

Quisera encontrar meus heterônimos
Aqueles sujeitos inexistentes
De almas perenes ou intermitentes…
Quem sabe me reconheceriam?
Diriam enfim quem eu sou
Deixar-me-iam menos anônimo
Mais eu; mais meu, mais teu.
Nos braços, pura volúpia,
Brindaríamos a nossa poesia!
A mesma que nunca existiu…
Delírio de almas metáforas!
Qual figuras projetadas
Nas paredes de nossa nudez,
Sonhos de nossas crias
Daquilo que se prometeu…
Ruído que se perdeu
Nos sons da nossa mudez …
Seríamos enfim belos versos!
Inverso do que se viveu…
Ficção que nunca fui eu
Um eu que nunca fui tantos
Melodia de minha surdez!

—————

MORTO VIVO

Mofado
Teu corpo almofado…
Deitado esticado
Vivo, enforcado!
Parece lamento,
Nem cinzas produz.
De tão ressecado,
Escorre-lhe um pus.
Morre em tormentos
Acaso não vês?
És inverno ressequido,
Um morto vivo!
Carne em putrefação!
Tua fantasia
Fez da tua mentira
Inverdade que te ardia:
Escárnio, picardia!
Finges ser belo,
Do acaso, esmero!
És deserto molhado
Um vaso rachado.
Um inverno sem água,
És dor,
És lamento
De uma alma cisterna!
Foi-se teu contentamento!
Até quando suportas?
Teu mundo sem portas?
Que mudes teu rumo:
Epifanie teu sumo!

About The Author: Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *