Diálogo entre as diferenças, uma resenha do filme Poesia Sem Fim

No início dos anos 60, em Paris, Fernando Arrabal, Alejandro Jodorowsky e Roland Topor criaram o movimento Pânico, embora Arrabal afirme que o “Pânico não é nem um grupo nem um movimento artístico ou literário”, ou seja, acredita que seria melhor entendê-lo como “um gênero de vida”, um jeito de ser. Num texto escrito em 1964, intitulado “Pânico e frango assado”, Jodorowsky afirma que “uma das distinções fundamentais que o pânico estabelece no homem é sua dualidade pessoa e personagem”.

Em Poesia sem fim, o escritor, diretor de teatro e cinema, mímico, quadrinista, bruxo e xamã Alejandro Jodorowsky faz questão de praticar a ideia do pânico. Recorrendo à máxima do pânico (do deus Pan, da totalidade), de que “a vida é a memória e o homem é o acaso”, Jodorowsky segue à risca a possibilidade de realizar uma festa pânica presidida pela confusão, onde se con-fundem o humor, o terror, o acaso e a euforia. Nesse sentido, qualquer suposta falta de coesão é intencional, ou seja, uma espécie de transe onde o próprio delírio tem uma ordem interna, embora não haja um interesse de estabelecer nenhum discurso de equilíbrio na loucura.

Numa ficção autobiográfica, coloca em questão a relação entre pai e filho, estabelecendo a prosa como uma espécie de espinha dorsal da trama, aliás, apesar de Jodorowsky aparecer como uma espécie de consciência do personagem principal, se é que isso existe, a poesia é a verdadeira protagonista da trama, conforme revela desde o título do filme.

Fazendo uma hermenêutica de Poesia sem fim, a obra – desde o título onde contém a palavra poesia – se sustenta a partir da tríade, poiesis, mímesis e aístheses, entendendo a poiesis como o próprio ato da criação, a mímesis atuando tanto no sentido da imitação quando da emulação e, aísthesis como a percepção ou sensação. Ainda no título, “sem fim”, pode ser entendido tanto como a infinidade da poesia quanto de sua não-finalidade, no sentido de não ser utilitária.

Nascido na cidadezinha de Tocopilla, região litoral entre Antofagasta e Iquique (norte do Chile) e filho de imigrantes vindo da região que hoje se compreende a Ucrânia, no sentido autobiográfico, apesar do recorte que faz resgatando sua história e herança artística do Chile dos anos 40, Jodorowsky traz o resultado de sua vivência e influência de todos os movimentos e circunstâncias das quais vivenciou.

Por um lado, como uma espécie de alter ego do autor, o filme mostra o pequeno Jodorowsky crescendo num mundo pleno de contradições, enfrentando problemas tanto de ordem familiar quanto da realidade em torno. Em todas as cenas em que sua mãe aparece, ela se comunica exclusivamente como se fora uma soprano de ópera e, para simbolizar a tirania do pai, este é retratado como um nazista. Nesse momento, o jovem Jodorowsky, Alejandrito, interpretado por Adan Jodorowsky, filho do diretor, enfrenta o pai, interpretado por outro filho, Brontis. O filho lê Garcia Lorca e quer ser poeta, mas o pai o discrimina e o humilha, exigindo que ele seja um doutor.

Por outro lado, o personagem Jodorowsky, do abismo que se constrói entre ele e sua família, o faz partir para o mundo, numa luta por se desvencilhar da dependência inicial da mesma da qual se destoa e se sente reprimido. Sai em busca de si mesmo, empreendendo uma jornada na qual se recusa a ser “um morto a mais, entre tantos outros mortos”. Nesse percurso, na versão do “jovem” Jodoroswsky, o personagem se enamora de uma mulher exótica e experiente, a poetisa Stella Diaz Varín, interpretada pela mesma atriz que faz sua mãe (Pamela Flores). Para além de seus encontros no Café Iris, essa personagem que bebe cerveja aos litros também o conduz a uma jornada de sexo onde, a cada vez que saírem à noite, deverá tocar suas partes íntimas.

Assim, envolvendo-se num movimento de poetas “malditos”, como Enrique Lihn, Stella Diaz Varín e tantos outros, realizam atividades na cidade, questionando aqueles que vieram a ser referências da poesia chilena no século XX, entre eles, Pablo Neruda e Nicanor Parra. Desta forma, coloca em cena a agitação cultural de Santiago do Chile dos anos 40. O interessante é que não se trata de uma mera fotografia deste momento, mas Jodorowsky coloca em questão os conflitos que perpassam esse movimento. Por exemplo, no caso de Pablo Neruda, filmado por Larrain, como uma espécie de poeta oficial, um Buda, não parece muito interessante pelos jovens poetas, considerando que os mesmos amavam Nicanor Parra, o poeta da rua.

Curiosamente, conforme Jodorowsky, “Deus teve um bom senso peculiar”. Nisso ele se refere ao fato de que Pablo Neruda, “o poeta”, cujas iniciais são PN, Nicanor Parra, ao contrário, NP, o antipoeta, e suas iniciais são invertidas. O consagrado Pablo Neruda publicava suas Odas Elementales e, o então estreante Nicanor Parra, lançava seus Poemas y antipoemas, obras consideradas como um novo tipo de poesia, a poesia “hablada”, conversacional, ou seja, ao alcance do grande público e, não é por acaso, quando afirma que os “USA são um país onde a liberdade é uma estátua”.

CONTRADIÇÕES SEM CONVENÇÕES

Em Poesia sem fim, como um homem de artes cênicas, Jodorowsky abusa de jogos teatrais e circenses, desde o colorido que desafia os padrões convencionais até o uso de auxiliares de palco sem nenhuma preocupação de esconder os truques como, por exemplo, homens vestidos de negro manipulando objetos de cena como os bunraku do teatro de bonecos japonês e, também, um breve improviso do teatro de marionetes para mostrar o suicídio do jovem homossexual, ironicamente, num poste, símbolo da luz, em frente à Universidade Nacional do Chile, suposto lugar da inteligência.

Ainda, numa alusão à atividade circense, utiliza-se de anões, numa inusitada cena em que um deles aparece como um mini-Hitler, espécie de chamariz para atrair clientes na entrada na loja El Combate, anunciando que derruba preços altos, bem como o casal de anões que, no auge da paixão, fazem uma declaração de amor afirmando que “juntos podemos crescer”.

É um filme em que as contradições são propositivas, considerando que, além das belíssimas sequências, com fotografia de Cristopher Doyle e trilha de Adan Jodorowsky, se realiza de certo modo irregular, uma vez mais confirmando seu exercício do pânico, assim como a vida que também é feita de acasos. Um passeio desde Apolo, deus da beleza, da perfeição, da harmonia, do equilíbrio e da razão, a partir de suas primeiras leituras de Garcia Lorca, até Dioniso, deus dos ciclos vitais, das festas, do vinho e da insânia, nas aventuras com sua musa no Bar Iris.

Enfim, o filme retrata a trajetória de Jodorowsky, um artista selvagem em voos poéticos, um dos nomes que ebuliam na cena artística chilena nos anos 50, com a fúria de quem quer respirar o prazer e a liberdade da criação. Contemporâneo ou pós-moderno? Nem um nem outro, ou os dois e muito mais, considerando que o que está na base de sua poética se funda no pânico, onde as possibilidades não se excluem, mas são uma dança do mesmo onde as diferenças estão em permanente diálogo. E o poeta quer ir à Paris para conhecer André Breton e salvar o surrealismo…

About The Author: Wilson Coêlho

Wilson Coêlho

Poeta, tradutor, palestrante, dramaturgo e escritor com 17 livros publicados, licenciado e bacharel em Filosofia e Mestre em Estudos Literários pela UFES, Doutor em Literatura pela Universidade Federal Fluminense e Auditor Real do Collége de Pataphysique de Paris. Tem 22 espetáculos montados com o Grupo Tarahumaras de Teatro, com participação em festivais e seminários de teatro no país e no exterior, como Espanha, Chile, Argentina, França e Cuba, ministrando palestras e oficinas. Também tem participado como jurado em concursos literários e festivais de música.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *