POETA DA SEMANA: Paulo Caldas Neto

Paulo de Macedo Caldas Neto nasceu em Mossoró e completa 36 anos exatamente hoje, 31 de março, dia de poesia aqui no Papo Cultura. De família assuense, é graduado em Letras/Língua Portuguesa e Literaturas e mestre e doutor em Literatura Comparada pelo Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem da UFRN. É professor do IFRN e autor de dois livros de ensaios: ‘No ventre do mundo’ e ‘Do picadeiro ao céu: o riso no teatro de Ariano Suassuna’.

Vencedor do prêmio Escritor Eulício Farias de Lacerda (União Brasileira de Escritores do RN), obteve o terceiro lugar no 8º Concurso de Poesia Luís Carlos Guimarães (Fundação José Augusto), Prêmio Sarau Brasil – Concurso novos poetas (Ed. Vivara Nacional) – 2014, Concurso de poesias da UFRN-2014, o 14º lugar no 34º Concurso de Trovas-2014 (Academia de Trovas do RN), o 9º lugar no Concurso da União Brasileira de Trovadores 2015, 5ᵃ Menção honrosa no 10º Concurso de poesia Luís Carlos Guimarães–2015, 2º Concurso Literário Américo de Oliveira Costa (Editora Universitária-2015), categorias poesia e crônica, o que lhe rendeu a publicação das crônicas e poema premiados nas antologias Natal e outras crônicas e Máquina de sonhos e outros poemas (EDUFRN-2017).

Paulo Caldas Neto é nosso POETA DA SEMANA!

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ARQUIVO

O limite do mar é o mesmo,
não houve redemoinho.
O hotel está ali  é divertido ver a algazarra com que os hóspedes
desfilam para o público no palco. E é também
triste como os que assistem se esforçam por notarem suas bocas
[invisíveis.

À meia-noite o Reizinho fecha suas portas
para um baile de carnaval…  incerteza precisa.
Assim o é a ausência do artista recordando alguém
[cantando!!!…

Um bolero? Uma música de Roberto?:
“Quero que você me aqueça nesse inverno…”
de Caetano?: “Caminhando contra o vento…”

Não, é só a cantiga de um fã
que se recusou a deixar o quarto 366
do 3º andar, com vista para a piscina suja,
[agonizante, o poente dos suicidas!

Os resíduos de cerveja, coca-cola, salgadinhos
são os versos esquecidos que a orquestra não quis concluir…
E o ritmo musical se esvai na penumbra da noite…
…………………………………………….

O corpete lustroso! Envolvente!…
Gemendo como sua dona, açoita a íris
[que contempla a maré.

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A MANDALA

Meu não-eu me violenta diariamente.
Mesmo naquele resto de cama improvisada,
posso ainda ver seu riso irônico,
sobrevivente do último atentado à bomba em Beirute.
Adiante, pedaços de mim sobre o tablado de círculos concêntricos,
esperando a complacência do ar para se unirem.
O que poderão dizer a quem persegue o seu segredo?

Neste casarão da Ribeira,
neste jardim de Cascudo,
neste sobrado escuro,
nesta sala de visitas,
o que devo buscar além do que tenho?

Restos, restos, restos, restos…

Acho que procuro partes de mim varridas pelo tempo,
através da poesia que religa, com o seu dom, sonhos e realidades quase opostas.
Nossa história continuará sem recompensas;
nosso olhar, uma entropia nova;
nosso coração em constantes pulsações de cataclismos;
nossa alma, uma vereda inexplorada.

Os esboços desta curva da vida só me levam ao ponto zero,
todas as vezes que ouso profetizá-los.
Versos são feitos para isso e nada mais.

Daí, essas dobras e planícies irregulares
para os versos mapearem,
desenharem,
calcularem,
esculpirem,
outorgarem.
O poema nada mais é que uma incógnita;
e um verso, a descoberta desta.
Por isso, o poeta pensa que a poesia é a bússola de seus oceanos,
a amálgama de suas dores,
o elixir de sua loucura.

Não, é tão só poesia-nômade.

Já me encontro próximo ao Hemisfério Sul
até perder-me novamente
numa tela de Dali
e perceber que sou feito de meras transições de mim mesmo.

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CALIDOSCÓPIO

À poetisa Lisbeth Lima de Oliveira.

O quintal
O pomar
O açude
A cerca
O gado na pastagem.

Toda viagem neste Reino é um livro aberto,
com paragens insólitas nos mundos da minha lembrança.
De tão Vasto, é Eclipse;
De tão dormente, é permanência.

Eu já não visto a poesia,
ela me veste.
Traiçoeira, é fita de seda;
breve, orvalho em romã morta;
singela, café feito em forno de lenha.

Sua sinfonia de veludo faz-se concerto em meu peito,
lume em um candeeiro,
cume de uma Torre Eiffel-serrana.

About The Author: Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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