POETA DA SEMANA: Nivaldete Ferreira

Nivaldete Ferreira é paraibana de Nova Palmeira, radicada em Natal desde 1972. Graduada em Letras pela UFRN, tornou-se professora na mesma instituição. Publicou os livros de poema ‘Sertanía’ (1979) e o ‘Trapézio e outros movimentos’ (1994). Também o texto teatral ‘Entre o carrossel e a lei’ (2007) e o romance ‘Memórias de Bárbara Cabarrús’ (2008). Produziu ainda para o público infantil: ‘Psilinha Cosmo de Caramelo’, de cunho literário, ‘O clubinho da água’, paradidático, e o ‘CD Cantando e aprendendo’ (disponibilizado no site do IGARN), ambos voltados ao tema ecológico. Tem publicado no Facebook poemas que farão parte do próximo livro. Alguns dos que seguem foram publicados também na revista 7faces.

Nivaldete Ferreira é nossa POETA DA SEMANA!

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Mais tarde

Um nascediço débil sussurra
alguma coisa debaixo dos meus cabelos
Bato nas orelhas, paciência
não vês que estou ocupada
assistindo ao pugilato dos homens
sobre suas almas de vidro?

Vem mais tarde, pequeno,
prometo ouvir-te como quem ouve
uma criança de pouco vocabulário
que quer dizer as descobertas do dia
e não sabe o nome das coisas

Mais tarde me trancarei num lugar ameno
sem zumbidos sem som de quebra
em média luz paredes flexíveis
que posso baixar ao chão para enxergar
o Longínquo o Limpo o Inteiro
onde estivemos antes daqui

Vem mais tarde, meu amor,
agora não
agora vejo homens caindo
todos perdendo
só uns ao fundo em pé
segurando mudas e potinhos d’água

Mais tarde te receberei, poema,
e tudo.

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Havia

O dia estava aberto às coisas que falam.
Havia um vestido louco fugindo do varal
E um cachorro lutava contra uma flor caída.
Havia um lodo azul nas pistas,
Pedaços de céu que os homens estragaram.
Havia lobos magros olhando as praças
E um carnaval sem ninguém
Que todos tinham ido comer lótus em terras outras
E havia um sertão/um desertão
Estourado de acnes/cactos
E ninguém sabia que embaixo havia
Pedras de valor.

Havia meninos trabalhando em lugares ermos
E homens mentindo ao redor de grande mesa.
Havia.

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a chave do corpo

a chave do corpo não é o sexo
por mais que abra um corpo a outro.
um corpo requer muitas chaves.

assim falou o chaveiro
enquanto fazia
mais uma chave para o meu corpo.

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Ciclo de Saros

Pelo Ciclo de Saros sabe-se a repetição
Dos eclipses.
Também as palavras entram em zona de umbra,
Repetidas vezes fazem um cone de sombra
Atrás de si.
Isso faz que exista
Uma astronomia do sentido.

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devassa

toda leitura é devassa.
toda leitura é uma devassa.

começa por aí,
detalhes… prestar atenção à fenda
do olho do gato no escuro.
então vamos per-
noitar por aqui? venha. vinho. ou café para espertar. um chá?
devasse à vontade.
devasse a minha vontade.
estou branda, banhada. pronta. absoluta-
mente alma dada à sua devassa.

uma certa alegria, aquela
que se preparou perto da janela e da alta hora
quando não havia ninguém. mais.
o aroma da madrugada
e alguma expansão no quarto,
um lírio e um leve delírio.
vamos ao gozo da hora.
estarei calma como quem apascenta
roupas de antigo varal.
de…vas… se… -me……

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Yes
Ou-
Vimos
O ran-
Ger da
Porta
O som
Da lagar-
Tixa nas fo-
Lhas se-
Cas
Xriiiiiiiii
Não ou-
Vimos
O som
Dos es-
Tupros
Nem de ou-
Tros es-
Talos do mun-
Do, as vis vi-
Olências
Todas…

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Um copo de transcendência
Pra beber
Nesse bárbaro bar que é o mundo

About The Author: Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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