Do escritor negro preso por sugerir libertação da educação burguesa no Quênia

O queniano Ngũgĩ wa Thiong’o (pronunciado “ingugui uá tiongô), tem publicado no Brasil o romance “Um grão de trigo”, em 2014, pela Alfagara e, “Sombra em Tempo de Guerra”, em 2010, pela Biblioteca Azul, primeira parte de uma trilogia ainda não finalizada de memórias. Autor de novelas, peças teatrais, contos e ensaios, da crítica social à literatura infantil, estudou inglês na Universidade de Makerere, em Uganda, e é o fundador e editor da revista Mutiiri.

Das obras escritas em inglês, estreou com o romance Weep not, Child (1964). Em 1977 escreveu uma peça com críticas políticas propondo a espontaneidade e a participação do público na execução da peça como possibilidade de libertar o processo teatral do “sistema geral de educação burguês”. A peça não teve boa acolhida pelo autoritário regime queniano e o autor passou mais de um ano na cadeia. Ainda na cela, escreveu no papel higiênico o romance Devil on the Cross.

Desde então, passou a escrever no dialeto gĩkũyũ, da língua bantu, por não gostar de adotar como sua a língua colonial, afirmando que “as línguas africanas estão muito vivas, mas, se não as usamos para escrever, podemos levá-las à morte. Meu idioma é o gĩkũyũ, e com ele posso brincar mais com a musicalidade do que fazia em inglês.” Renunciou à língua inglesa, à religião católica e ao seu nome de batismo, James. Foi libertado da cadeia por intermédio da Anistia Internacional que o entendeu como prisioneiro de consciência. Saiu de seu país e, nos Estados Unidos, ensinou na Universidade de Yale durante alguns anos, bem como na Universidade de Nova Iorque, nas áreas de “Literatura Comparada” e “Performance Studies”.

Ngũgĩ wa Thiong’o e o autor deste texto, Wilson Coêlho
Assisti ao discurso de Ngũgĩ wa Thiong’o, na Tenda dos Autores, na Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP 2015, na mesa “Escrever ao sul”, uma espécie de celebração do trânsito entre culturas, que ele dividia com o autor de “O caminho estreito para os confins do norte”, o australiano Richard Flanagan. O queniano arrebatou a plateia quando a cumprimentou com palavras em kikuyu, sua língua nativa e conseguiu que o público as respondesse com uma expressão que soava como um longo “eeee”. Ainda arrancou fortes aplausos desse mesmo público quando afirmou: “Estamos agora em Paraty e é preciso ter consciência da história de sangue que criou esta cidade. O povo africano foi escravizado aqui. E os opressores, em casa, deveriam ser pais santíssimos. Iam à Igreja e pediam perdão. Não consideravam a escravidão um pecado.”

Seu romance “Um grão de trigo” se ambienta nos quatro dias que antecederam a independência do Quênia. Tanto na narrativa quanto nos diálogos, o autor explora a história de seu país a partir do colonialismo e do neocolonialismo, a identidade nacional, a civilização e a barbárie, a construção da língua literária, assim como a cultura da memória. O herói não é um personagem, mas a comunidade onde a história se passa. No processo de independência do Quênia, em meio aos assassinatos e torturas cometidos pelos ingleses, mostra-nos como as paixões, as traições e o medo moldaram cada um dos personagens, aliás, entre os que têm coragem e os que têm medo, os que têm medo são de certa forma superiores, considerando que os que têm medo precisam vencer a si mesmos para enfrentar a luta. Os que têm medo do escuro e decidem caminhar nas sombras, assumem um gesto de heroísmo moral, ao passo que os corajosos se quebram ou experimentam um heroísmo meramente factual e de pequenos momentos.

O homem branco chega ao país segurando firme o livro de Deus com ambas as mãos e se autoproclamando o mensageiro do Senhor, numa língua que era só doçura e com humildade comovente, vangloriando a Inglaterra dominada por uma mulher, a rainha Elizabeth. Ao converter os quenianos, os ingleses começaram a pregar a fé estranha aos costumes da terra, afrontando suas crenças, pois pisavam em lugares sagrados para mostrar que nenhum mal podia recair sobre os protegidos pela mão do Senhor. A Bíblia foi trocada pela espada.

Os ingleses diziam para ajoelhar, fechar os olhos e rezar. Os quenianos ajoelharam, fecharam os olhos e rezaram. Os olhos do ingleses continuavam abertos para ler a palavra. Mas quando os quenianos abriram os olhos, suas terras haviam sumido e a espada flamejante estava em guarda. Os ingleses “aconselhavam” que os quenianos deveriam depositar seus tesouros no céu, onde nenhuma traça os comeria. Mas eles depositaram os seus na terra, na terra dos quenianos.

About The Author: Wilson Coêlho

Wilson Coêlho

Poeta, tradutor, palestrante, dramaturgo e escritor com 17 livros publicados, licenciado e bacharel em Filosofia e Mestre em Estudos Literários pela UFES, Doutor em Literatura pela Universidade Federal Fluminense e Auditor Real do Collége de Pataphysique de Paris. Tem 22 espetáculos montados com o Grupo Tarahumaras de Teatro, com participação em festivais e seminários de teatro no país e no exterior, como Espanha, Chile, Argentina, França e Cuba, ministrando palestras e oficinas. Também tem participado como jurado em concursos literários e festivais de música.

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