Natal: Utopias para uma cidade imaginária de cosmopolitas matutos


Natal parece cidade de partida, nunca de chegada. Ou se chega para partir depois. Se visita, portanto. É que nada aqui dura muito. Bares da moda, bandas da moda, estéticas da moda. Diógenes da Cunha Lima já poetizou que na Ribeira só o que passa, permanece. Natal toda guarda esse princípio. Talvez por isso o tema de mesa-redonda na UFRN, ser “Utopias para a Cidade”. E quer discutir uma Natal para todos. Título realmente adequado.

Talvez sejam as dunas móveis onde nada se sustenta. Talvez seja a extensão litorânea com o além-mar a apontar sempre novas possibilidades. Talvez seja a saudade eterna dos norte-americanos que vieram, chacoalharam a cidade e foram embora em debandada. Fato é que Natal vive de história e imaginário, de nostalgia e ilusão. Uma cidade cheia de disfarces mesmo ao flaneur de Walter Benjamim: um viajante apaixonado e fisgado pela Natal de sonhos.

O flaneur encostaria seu barco no Potengi de águas turvas. E iniciaria o périplo. Rocas, Canto do Mangue: fósseis da cidade verdadeira. A Ribeira de eterna saudade. Cidade Alta devorada pelo tempo. Tirol/Petrópolis, retrato de uma cidade que poderia ter sido e não foi. Barro Vermelho nem residência nem comércio. Alecrim vendida. Lagoa Seca de tudo. Lagoa Nova de concreto. Cidade da Esperança que se foi. Felipe Camarão, bastião morto.

Tela de Flávio Freitas

E o flaneur desceria às praias. Uma Redinha cansada de peixe. Praia do Meio do nada. Praia de quais artistas? Areia Preta blindada. Via Costeira de outros. Até a Ponta Negra babel, da vila e da noite. Não, Natal não é mais cidade do sol. Do sol que nasce para todos. Aqui até as utopias distam mais. Estão longe, logo depois da linha do horizonte marítimo – o novo mundo sempre mais belo e mais ameno do que a cidade construída de costas ao rio.

Natal vive do ontem. Na política coronelista. Na economia atrasada. Nos movimentos sociais torpes. Vive de lendas. Da presença de Exupery. Da Cidade Espacial de Manoel Dantas. Da cidade cosmopolita. O escritor Pablo Capistrano foi certeiro: “Natal é cidade formada por matutos cosmopolitas e sertanejos que moram na praia”. E François Silvestre comprova: “O mapa do RN se parece muito mais com um caranguejo, mas não, queremos ser o elefante”.

Queremos ser vanguarda. Queremos um novo porto, um novo parlamento, um novo presépio. Queremos ser o ar mais puro das Américas. Queremos, queremos e de tanto querer, tudo se absolve. Falta querer identidade. E para tal precisa não querer mais. Ainda no século 19 havia o trocadilho popular: “Natal. Não há tal”. Natal nunca houve. Cidade de retalhos, mosaico de culturas sem unidade onde se gasta 200 para o outro não ganhar 20.

Natal turística, sim. Sol e Mar. Araruna e Congo. Fortaleza e Morro do Careca. Ginga e camarão. Linda em costumes e saberes, como nos quadros de Dorian e Navarro, nos livros de Cascudo e Lamartine. Nada é ficção. Ou também, porque Natal é cidade imaginária na arte que imita a vida. Natal esquina e esponja do mundo, de geografia e de alma abertas, onde quem passa deixa legado, porque na Ribeira ou em Natal, só o que passa, permanece.

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Foto: Alex Uchoa

sergiovilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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