A meta-física dos xifres


Croniketas da Burakera #4

Meus campanhas de papo-y-pasión! Brau! Uma palavrita inicial, numa boa, para os leitores quentados e requentados nas responsas
gramatiqueiras do pátrio idioma. E também para os revisores.

Seguinte, manusho: nessas paradas cult-brega de nossas Croniketas da Burakera o título aí em cima, no rigor dos TOCs e retoques da GramáticaDura aparentemente tá errado: xifre com x – qualé?

Mas num tá errado não, cumpadi. É com “X” mesmo. Tem a ver não com os regramentos da gramática. Mas com a dramática dos desregramentos sexi-afetivos da Vida.

É “X” que já traz em sua própria letra inicial o formato em “v” do “xifre” forjado-calejado nas realidades conjugais e desconjugais.

Onde há quase sempre mais de uma xana-ou-ximba, vucuvucando, um no outro, outro no um, outro no outro… por aí… na dramaturgia delirante das encornações. Xifre humanista. Que nada tem a ver com o “ch” da chifralhada dos animais.

Mas o que quero dizer é que recebo email de uma querida amiga onde ela relata inusitada história de um nó-de-xifres, supostamente real. Uma cornice contratada e fracassada. Isso foi lá pelo ano 2012, nas “oropa“. Minha amigona pediu que eu escrevesse algo sobre.

O drama é o seguinte, mago-velho: homem, com 2 filhos, e fama de pegador, é contratado por marido estéril pra engravidar a própria esposa. Xifrância autorizada, contratada, abençoada.

Depois de xifrar pra valer com a esposa do outro, na cama do outro – 3 vezes por semana, por 6 meses – o garanhão descobre que também era estéril. E que seus 2 filhos com a esposa, dele, também eram xifres. Mas não autorizados. Xifre pra todo lado, negão.

Canta Waldick Soriano, canta, meu santo! Diz aí que “eu não sou cachorro não“!

Daí, nesse emaranhado de chifres, o contratado-xifrador foi processado pelo contratante-xifrado: quebra de contrato. Valor do contrato: 2 mil euros. Se vê, portanto, que xifre com “x” é coisa séria. Neoliberal e lucrativa.

No fundo metafísico da coisa, todo Homem (e Mulher) é cornuto em-si-e-para-si-mesmo, através do Outro.

Meio confusa, essa expressão filosofeira “em-si-e-para-si-mesmo”, precisa ser descascada e desfilosofada.
Significa, simplesmente, que todos nós tanto somos enganadores de nós mesmos e dos outros; quanto somos, por isso mesmo, enganados. Xifre é que nem iôiô vai-e-vem.

Mesmo que seja só um xifre imaginário, ninguém escapa. Dizem os psicas-entendidos que numa cama de bem-casados ou mal-casados, ou mais-ou-menos casados, há sempre uma penca de outros-e-outras xavecando desejos, gozos, lembranças.
Suruba total. Gozo comunitário. Sai debaixo, malandro!

Trocando em miúdos, no mantra do senso-comum: Quem com xifre fere, com xifre será ferido. De alguma forma.
Ou seja: o troco é inevitável.

O Xifre é Universal, Intransferível, Intercambiável e Meta-Físico.
A cornitude ou xifração é uma categoria meta-física-essencial do desejo.

Seja por pensamentos, seja por palavras, seja por ações-e-interações, seja por 1 minuto, semanas, décadas ou encarnações, seja por email, facebook, zap-zap, a chifração é própria da natureza humana. Tá no DNA carnespiritual de todos nós.

Um dos exemplos mais famosos da História dos Xifres foi o Xifre-Real do feioso Príncipe Charles da Inglaterra, o Príncipe de Gales.

O nobre-xifrador corneou nada mais nada menos que a jovem-linda-elegante Princesa Diana, sua famosa esposa, Princesa de Gales.
Adorada pela realeza, pela mídia, pela opinião pública, etc. Quem nunca sonhou com uma linguada no xibíu-real de Diana?

Pois bem, contra tudo e contra todos, o Príncipe mandou ver um Xifre-Realíssimo pra cima da Princesa. Um Xifre anunciado.

Vocês sabem da história. O nobre príncipe tinha um amor-antigo pela também feiosa Camila Parker, uma amiga rica.
Mas como não era da aristocracia real, nem era virgem. Inda por cima divorciada e não anglicana Camila foi recusada pela Família Real Britânica, como pretendente séria. Apesar de amante oficial. Osch, minino! Lá no ImpérioBritânico é preciso ter pedigree.

Mesmo assim, por-cima-de-pau-e-pedra, Charles e Camila, viveram um incrível amor de 34 anos, nas sombras e luzes do palácio real.
Por ai já se vê que, no Amor e no Chifre, quem vê cara não vê coração, nem o resto.

Todos sabiam. Inclusive a Princesa Consorte. Nas festas, reuniões, clubes e iates, os nobres puxavam um pigarro britânico e desconversavam.
Silêncio real. Mas porque toda essa cobertura amoral?

Eu diria, de cara, que o Poder é um deus-monstro faminto e machista. O tal Leviatâ de Hobbes.
Sua insaciável fome precisa ser alimentada em todas os níveis políticos e não-políticos.
Inclusive no nível da paixão e das doidices amorais e sexuais.

Explico melhor. Desde Roma, ou antes, toda a alta realeza e aristocracia parecem admitir, civilizadamente, os Xifres-Reais ou aristocratas.
Desde que fosse “por baixo dos panos“.

Há pois algo de inelutável no Xifre. Difícil segurar. O xifre é karmático, nêgo-véio. O cheiro de xana enlouquece. Tanto que criaram na Idade-Média o tal cinto de castidade. Que não deu conta da xifranação crônica.

Seja como for, concubinas, amantes, escravas, escravos, gladiadores, Chefes da Guarda, motoristas, soldados, generais, etc, todos eram seduzidos e se fartavam entre as divinas pernas reais. E também das plebéias.

A xifrância comia solta, num “jogo-aberto-fechado”, de confidências, paixão, taras, interesses, mutretas. Todos sabiam de tudo.
Mas ninguém sabia de nada.

Ao afrontar a tradição da nobreza, o Xifre vira historicamente, uma quase-tradição paralela. Quase-nobre.
No Brasil-Hoje, por exemplo, já temos um projeto de Lei das Amantes. O Projeto de Lei 470/2013 da senadora baiana Lídice da Mata (PSB),
desde 2013, tramita no Senado e na Comissão de Direitos Humanos. Se for aprovado teremos a Bolsa Amante. É só juntar as notas dos motéis
e provar que é amante pra valer e não uma piranha ocasional qualquer.

No Brasil-Colônia, os Xifres de D.Pedro e a formosa Domitila, Marquesa de Santos, pra cima da Imperatriz Leolpoldina, eram escandalosamente reais, cotidianos, manhosamente permitidos e abafados, sob a capa de um moralismo oficial.

Bom chefe-de-família, todavia, D.Pedro, o Demonão, – como ele se chamava – era um pegador fora de controle.
Conta-se que, certa vez, em Santos, no meio da rua, o Demonão deu de cara com uma escrava negra bonita e boazuda, dessas de fechar a Sapucaí.

D.Pedro não resistiu. Agarrou-a a nêga de jeito e tascou-lhe um beijo imperial, segurando-lhe as fartas ancas-ancudas.
A nêga danou-se e deu-lhe uma bofetada. E foi tudo abafado, pelas honras do Poder. Sacumé, foro privilegiado.

Nos bilhete diários pra Domitila, D.Pedro, que se assina como “o Demonão”, sempre chamava o próprio pênis de “a tua coisa”. Coisa dela, de Domitila, of course. Nesses desavergonhados e inflamados bilhetes avisava à amante que aquela noite “a tua coisa irá aos teus cofres”.
O bixo era o cão chupando manga. Aliás xupando Domitila.

E, num dos bilhetes avisa: “Ontem fiz amor de matrimônio para que hoje, se mecê estiver melhor e com disposição, fazer o nosso amor por devoção”.

Donde se conclui que, se há Amor no Xifre e não só vuco-vuco-sexual, esse amor é devocional.

Mas, se o chifre era tolerado, certos escândalos eram abafados. Ou não eram permitidos. Por exemplo, um filho bastardo dificilmente era aceito. Ou, mesmo os mistérios escabrosos das intimidades reais eram mocosiados.

Se bem que, D.Pedro ao se referir “aos teus cofres”, no plural, dá pistas da variedade sexual íntima, verso-anverso, que praticava com Domitila.

Mas, voltemos à Inglaterra. Ao affaire Charles-Camila.
Como pode existir um amor-xifreiro assim, que tudo enfrenta e quebra a tradição?
Talvez um amor fanático? Eu diria mesmo um amor xanático.

Há indícios, há indícios.
Vejam só, furando todo o Poder Real, o Poder da Imprensa gravou dos celulares do Príncipe Charles e de sua Camilamante, a mais espantosa e picante conversa romântica de intimidade amorosa.

Aliás, celular, não. Me enganei. Naquela época ainda não havia celular como hoje. Foi telefone grampeado mesmo.
Seja o que for, a gravação comprova a obsessão xanáticamorosa de Charles por Camila .
O que rolou na conversa? Rolou um bizarro e abrasador papo de sexipaixão menstrual.

Charles balbucia ao telefone para a amada: “preciso de ti várias vezes por semana“.

Camila responde: “eu também. Eu preciso de ti toda semana. Toda hora.”.

Charles retruca como adolescente-em-chamas: “Ah, Deus! Se eu vivesse dentro das tuas calcinhas… se Deus me permitisse… como um Tampax! Seria minha sorte!”.

Incendiada e já molhadinha, Camila sussura: “Tu és um completo idiota! Oh, que idéia maravilhosa!”.
E deu uma risadinha de amante xifreira.

Assim, como o Amor, o Chifre também é lindo.
Mesmo menstruado.

Alguns espíritos desromanticos, talvez mal-amados, afirmam que tudo não passou de um comercial do Tampax.

Mas, Camila tem uma linhagem trepidante em termos de xifres e escândalos.
Sua tia-avó Violet fugiu do marido pra se casar com a amante lésbica, escritora, e também casada.
Um escândalo impensável na pós-vitoriana década de 20.
Mas xifre é xifre, cidadão. Impermeável a qualquer babaquice moral de época.

Hoje Camila, pós-morte de Diana, é casada com o príncipe. A Corte, quebrando toda a tradição, acabou aceitando esse amor-tampax.
Camila, ganhou o título de Duquesa da Cornualha. Nada mais britanicamente justo.

Mas a VidaViva é um rodopio constante. Como a Dança de Xiva, que constrói-destrói-reconstrói, vai transformando o que foi.

Tanto que, ano passado, o fofoqueiro “Daily Mail” publicou reportagem focando o casamento cansado de Charles e Camila.

O casamento estragou o Amor. O que era uma locapasión, sob o signo do Xifre, virou um nobre coleguismo.
Ainda não há índicios de outro xifre-real. Mas parece que ambos descobriram o tédio conjugal.

Entrevistada, uma amiga de longa data de Camila declarou: “Eles ainda se amam, não há dúvida disso, mas a vida de um casal casado é difícil para duas almas tão independentes. Existe certa eletricidade no sexo entre amantes que está condenada a desaparecer após anos de casamento”.

Ou seja: o Tampax só funcionou como taradice-elétrica de amantes.

Já a Princesa Diana, vocês lembram morreu, em 1997, num acidente automobilístico na França.
Segundo a imprensa-paparazzi da época a bela Diana estava dando uma escapadinha com um namorado árabe.
Dando o troco. Entre outras coisas.
Dizem até que estava grávida do namorado, e que o acidente foi provocado pelos serviços secretíssimos.

Era uma xifração aberta, a da Princesa de Gales.
Todos sabiam, a imprensa comentava.
Havia uma aprovação silenciosa da nobreza britânica e, dizem, do próprio Principe Charles.

Ambos se xifravam. Monarquia democrática, by Appointement of her Majesty, of course.

O mundo apoiava Diana. Uma coitadinha, linda de morrer, xifrada pelo marido feio com uma feia sem sal.
Tinha mais é que dar umas xifradelas também.

Diferente de seu Príncipe Consorte, que praticava a xifração-fiel, só com Camila. Diana fazia fila. Chifração-infiel. Talvez vingativa.
Do que se sabe, é que uns 7 amantes estiveram entrecoxas reais.
Desde os seguranças e motoristas, até jogadores, médicos, marchands, oficiais, etc. Como se diz, a fila anda. E entra.

Quem é o próximo?
Ficavam todos atentos.
Suspense e torcida.
Arre égua!

Xifres, xifreiros e xifrados, se movem como um boomerang lançado no Tempo.
Sempre voltam. Um dia. Outro dia. Talvez em dobro. Talvez como amor. Talvez como paixão. Talvez como rabixo.
Gambiarra daporra, meu menino vadio.

Ou como um nó-de-nós, danado de resistente, indesmanchável, desavergonhado, inexplicável…. mas profundamente humano.

Como diz nosso sábio croniqueiro Xico Sá: “O chifre humaniza o macho“.

Vai além de camas e motéis e sacode a consciência.
Vai da pele esfolada ao sonho estrumbicado.
É coisa carnespiritual esquartejada. Por isso é uma desgraceira meta-física.
Daí que mexe-remexe com as Coisas do coração, como canta José Augusto, o rei dos xifres românticos.
Ti guenta, boy-velho!

Ruben G Nunes

Desfilósofo-romancista & croniKero

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3 Comentários

  • Dagnino
    20 de março de 2017 at 20:38

    Ruben, bom dia!

    Excelente sua croniketa com seu linguajar desabrido e original, e o Papo todo. Vc deve ter observado q Cornualha tem etimologia ligada a chifre, certamente.

    Li tb sobre o Velho Chico. Sobre a transposição, esperava ler algo sobre a importância do projeto, secaram o Rio, é impte p/ benefício do NE x seu custo? Gostaria de ouvir sua opinião. Mãe sergipana, sempre procuro acompanhar o q acontece na sofrida região.

    Li ainda sobre Portugal, e envio artigo com comparações q escrevi sobre a terrinha, e q tem sido publicado.

    Servi na CV Ipiranga, atracada na BNN no Alecrim mas só por alguns meses, pois o navio teve q ir para o Rio – como carioca fanático, q felicidade! – com rachadura na popa (sem ilações, pef: era um dos eixos – fixação no casco cujo nome naval marinheiro não me lembro +). Apanhei uma gata local linda, mas mal deu para visitar suas belas coxas de raspão – incompetência minha, certamente.

    Apxs

    Dagnino

    • sergiovilar
      Sérgio Vilar
      20 de março de 2017 at 20:43

      Olá, Dagnino.

      Vou contatar o Ruben sobre seu comentário. Mas só destaco que o texto sobre o Velho Chico é do Marcius Cortez. E o da comparação galada com Portugal é deste blogueiro.

      Abração!

  • Jessica Colares
    22 de março de 2017 at 22:48

    Crônica incrível “seo” Ruben!
    Ótima leitura!

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