Potiguar concorre de novo em importante premiação do teatro nacional

A notícia surpreendeu este ator crescido nos quadrantes do agreste potiguar, no pequeno município de Santo Antônio do Salto da Onça. Mesmo sendo agraciado, em 2015, como Melhor Ator nacional pela Academia de Artes no Teatro do Brasil, desbancando nomes como o consagrado Ary Fontoura e outros atores da cena nacio

Encenação de A Mulher Monstro. Foto: Mylena Sousa

nal, José Neto Barbosa recebeu com alegria, surpresa e orgulho a indicação por mais um ano.

Desta feita, ele concorre como Melhor Monólogo, enquanto ator e diretor da peça A Mulher Monstro, encenada em Natal no salão da Pinacoteca do Estado e outros palcos Brasil afora. A concorrência traz nomes consagrados das artes cênicas do país: Marcus Veras (RJ) por “Acorda pra Cuspir”; Marcos Caruso (SP) por “O Escândalo Philippe Dussaert”; Leonardo Fernandes (MG) por “Cachorro Enterrado Vivo”; e Álamo Facó (RJ) por “Mamãe”.

José Neto Barbosa, único nordestino no páreo, integrante, hoje da S.E.M. Cia de Teatro. Foi assim também em 2015, quando venceu a disputa sendo o único representante da região. A notícia da indicação veio agorinha e “Neto” procurou este blogueiro para contar a boa nova. Aproveito para reproduzir a entrevista que fiz com ele, quando da vitória em 2015. Conheçam um pouco mais da história desse ator, diretor; orgulho potiguar:

Sergio Vilar – Quando se iniciou nas artes cênicas?

José Neto Barbosa – Quando eu tinha nove anos minha irmã mais velha era modelo, e por eu sempre acompanhá-la surgiu o convite de desfilar num concurso. Adorei a experiência de estar “em cena”. Até que um dia, já no CEI Mirassol, onde eu fazia encenações nas atividades escolares, soube de um curso de atuação televisiva e teatral. Fiz o curso e, desde então, não mais parei de fazer oficinas de interpretação. Me formei duas vezes no extinto Centro de Formação e Pesquisa Teatral de Natal; duas vezes por que adorava estar lá. Foi uma paixão que ia crescendo a cada espetáculo convidado e também produzido no grupo teatral escolar que eu integrava – dirigido por Ruth Freire.

Ainda duvidoso em ser ator por profissão, mesmo já participando de peças profissionais, foi em um auto natalino aqui da cidade (dirigido por João Junior e Diana Fontes) que Titina Medeiros assistiu um ensaio, me puxou no cantinho do palco e me fez jurar que eu jamais iria deixar de fazer teatro na minha vida. Até hoje tenho um carinho mais que especial por ela, pelo mestre João Júnior, aos queridos dos Clowns (onde sempre fui oficineiro) e por todos os mestres e as inesquecíveis palavras que eu ouvi ainda pequeno. Sem escolhas, vi que o palco é o meu lugar, onde me sinto bem, onde sou completamente feliz.

Quais os primeiros trabalhos, os primeiros grupos teatrais que participou?

O tempo foi passando, fiz autos natalinos, tive experiências com vídeo (publicidade na TV e filmes de curta-metragem), até montarmos o Grupo de Teatro Janela – junto a Ana Carolina Marinho, Ranniery Sousa e Cris Reliê. Mas por motivos maiores o grupo teve que parar. Assim fiquei sem cia.

Fale mais da S.E.M Cia de Teatro.

A S.E.M. Cia de Teatro atualmente tem sede-escritório em Natal e também no Recife, em Pernambuco. Para pesquisas práticas e de campo, unimo-nos às nossas parcerias. Surgiu com a necessidade em oficializar meus estudos que vinham desde o Grupo de Teatro Janela (2010), afora minhas experiências nesses 13 anos de trajetória como ator e produtor.

S.E.M. significa ”Sentimento, Estéticas e Movimento”. Pesquisa as questões e inquietudes do humano e suas intimidades, os sentimentos no seu profundo conceito na busca do sentido e aplicação da Atuação. Reconhece o teatro como uma arte de encontro e investiga a experimentação de estéticas e poéticas teatrais, o movimento do fazer teatral não apenas no ato de criação como também em sua inserção e contribuição para a sociedade.

O nome da Cia é sim uma saudável ironia ao atual movimento de teatro de grupo do Brasil, que pode, em momentos, se tornar excludente. Reconheço o movimento como plausível e conquistador das atuais políticas culturais. Mas quero atentar sempre ao pensamento de formação e inclusão, para que os grupos também tenham um olhar com os “sem cia”, que por falta de articulações ou até oportunidades acabam desistindo de fazer teatro.

É difícil sim entrar no “mercado de circulações”, cair na sorte ou agrados de curadores dos poucos editais sendo de um grupo de teatro, imagina sem ter cia. Pensando em capacitar essa galera, desenvolvemos diversas ações formativas pelo país, não só de atuação, como também workshops de produção.

Enfim, é uma Cia com um conceito e funcionalidade bem diferente; tem apenas um ator e outros integrantes-artistas que compõem as artes no teatro. PC Gurgel também é interprete, mas na Cia assume pesquisas de iluminação, junto ao pernambucano Gabriel Félix. Anderson Oliveira é produtor artístico. E Mylena Sousa é uma fotografa e DJ, que traz seu olhar norueguês entre a imagem e o sonoro.

Em parceria com Junior Dalberto, estreamos o primeiro espetáculo, o monólogo “Borderline”, que já foi visto por mais de 7.500 pessoas em dois anos de estreia, passando por diversos estados nordestinos e pelo sul do Brasil.

Metas próximas da companhia?

Estudamos muito Caio Fernando Abreu, temos olhares para os atuais acontecimentos e discussões do país, e tudo isso pode resultar nos próximos espetáculos. Faz meses que já iniciamos pesquisas pelas terras pernambucanas, nos aproximando de queridos artistas de Recife, como Renato Parentes, a cantora Patricia Solis e o ícone Adriano Cabral.

Referências e inspirações para seu trabalho?

O Brasil tem tantos bons e incríveis atores. Me inspiro na Drica Moraes, no contemporâneo Silvero Pereira, na Bibi Ferreira, a Montenegro, Paulo Autran, José Celso, minha madrinha Ittala Nandi, a Kiss. Aos artistas circenses e populares. João Falcão. Cazuza, Ney Matogrosso, Maria Bethânia. Caio Fernando Abreu, Cida Pedrosa, Gonzaga. Eduardo Okamoto. E temos atores potiguares incríveis como João Júnior, César Ferrário, César Amorim, Titina, Quitéria, Nara Kelly, Rogério Ferraz. E o grande João Marcelino. Sou eclético nos gostos e inspirações.

Boderline foi um divisor de águas na sua carreira?

Junior Dalberto me conheceu quando me indicaram para substituir um ator na sua comédia O Velório da Marquesa Di Fátimo. Fiz uma leitura e nela ele super acreditou em mim. Circulamos com a comédia pelo Nordeste e logo depois ele me presenteou escrevendo o espetáculo Borderline pra mim. Diz ele que se inspirou em muitas coisas, e também no meu olhar, que segundo ele é forte. Sonia Santos nos abriu o Teatro de Cultura Popular, montamos o espetáculo com um pequeno e importante apoio da Fecomercio RN.

Da estreia pra cá são quase 40 apresentações Brasil afora, participando de importantes festivais no Sul do Brasil, nas cidades nordestinas e premiação em Pernambuco. Passamos por 12 equipamentos teatrais. Já fiz 34 espetáculos/musicais/vivências teatrais nesses anos, comecei cedo. Mas esse é o meu primeiro monólogo, sem dúvidas marco na minha trajetória. Um drama forte, que o público se emociona, acolhe.

A peça também concorreu como melhor monólogo nesta premiação. Quem foram os concorrentes?

Como Melhor Ator, prêmio que conseguimos alcançar, concorri com Ary Fontoura (por O Comediante), Thalles Cabral (por Tadzio), Ricardo Gelli (por Genet, O Poeta Ladrão) e Nicolas Lama (por Nine, Um Musical Feliniano). Já na categoria Melhor Monólogo concorremos com a obra de Gregório Duvivier e João Falcão (Uma Noite na Lua), Gustavo Gasparini (Ricardo III), Isabel Santos (Senhora dos Restos) e o vencedor Paulo Betti (Autobiografia Autorizada).

Pode descrever detalhadamente como foi a noite de premiação para o leitor que não estava lá ter uma noção?

Embora os trajes blacktie, a premiação foi bem espontânea. Aconteceu em Sergipe, cidade sede. Ficamos em concentração no Hotel Real Classic, na orla de Aracaju, com os outros indicados que puderam comparecer. Tiveram representantes de diversos eixos do país, principalmente de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A cerimônia foi no charmoso Teatro Lourival Baptista, apenas para convidados e indicados. Evento exclusivo.

Pessoas admiráveis estavam lá! Grupos de teatro com mais de 25 anos de história, cias de sucesso de público no RJ e SP, dos musicais. Foi uma noite divertida e descontraída. Alguns indicados foram convidados para anunciar as premiações, eu tive a honra de poder anunciar a Melhor Cia de Teatro e Melhor Grupo de Teatro. Só vi pessoas de nome vencendo, lá e cá algumas boas revelações. Isso me deixava com aquele friozinho na barriga. As categorias mais importantes iam ficando por último.

Anunciaram o Melhor Monólogo e não vencemos, mas me sentia um vencedor só de estar ali. Após 28 categorias, restavam duas, e quando anunciaram Melhor Ator… Nossa, eu quase não levantava da cadeira, não esperava aquilo. E logo falei que esse frio na barriga, as expectativas e a esperança que nos torna mais humanos, em consequência, mais atores.

E as palavras ao receber o prêmio?

Todos se emocionaram com o discurso, que foi mais ou menos assim:

“Não se prepara discurso quando concorre com Ary Fontoura e outros tantos ícones das artes cênicas. Agradeço a Deus e todos os elementos da natureza que tornam isso possível. Minha mãe incrível, e minha família tão amada. A Ittala Nandi que tanto me impulsiona. Ao Anderson Oliveira que está comigo em todos os momentos da vida. Obrigado a Mylena, Paulo Sergio, Gabriel Felix e todos que compõem nossa S.E.M. Cia de Teatro, e aos que já passaram por nossa equipe. Aos meus alunos queridos. A Sonia Santos. A Rogério Ferraz, mestre que assina luz do Espetáculo. A todos que já nos produziram/receberam, até independentemente, em suas cidades. Obrigado ao Junior Dalberto, que acreditou na minha força e escreveu o texto do Borderline pra mim. Parabéns pra nós, querido! Obrigado a todas as pessoas que acreditam no meu trabalho! Recebi e recebo muitas vibrações, mensagens de todos – inclusive dos tantos que nem conheço! Obrigado a todos os mestres, ministrantes dos cursos e oficinas, e aos diretores que me ensinam esse ofício do palco.

Sou só gratidão, pois Teatro se faz pro povo! Por um teatro mais humano, como arte de encontro. Para que possamos falar mais de Sentimentos, experimentar Estéticas e se fazer Movimento. Estou muito emocionado. Passa um filme na cabeça de todos esses 13 anos de dedicação. Dos momentos complicados e dos maravilhosos. Mas foi inevitável falar dos difíceis investimentos em cultura – principalmente de onde venho. Que os nordestinos possam se unir e se valorizar mais – também, principalmente de onde venho. E de relembrar que, segundo dados, mais de 80% dos brasileiros não frequentam Teatro – isso é preocupante, precisamos falar sobre isso sim. Obrigado aos 70 curadores, das diversas regiões do país, que votaram pela plataforma Cenym. Ao Tom W.

Gente, obrigado a todo mundo, mesmo. Estou muito feliz, é um momento bem especial!
Desculpem se estou esquecendo alguém, por favor entendam, não esperava por isso.”

O que falta e o que sobra no teatro potiguar?

Falta escola de teatro, faltam políticas públicas eficientes e eficazes, investimentos. Falta união. Falta formação, falta produtores de teatro. Falta mais olhar para os nossos. Sobra dedicação, bons profissionais, e cultura rica, potente.

About The Author: Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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