As horas mortas do Grande Ponto


Foi pelas mãos do meu avô Arnaldo, homem forte de pele avermelhada, sertanejo de Caraúbas do Apodi, que conheci a rua Laranjeiras, na Cidade Alta, e que tanto me encantou no início dos anos setenta. Vivi boa parte da minha vida naquela casa de número quatorze, ouvindo o galo cantar no alto da torre da igreja Santo Antônio, anunciando as horas do Grande Ponto.

Sempre pensei que o Grande Ponto era toda a área da Cidade Alta. Mas, muita gente tem certeza em afirmar que o Grande Ponto é o trecho que implica o cruzamento da Rua João Pessoa com a Rua Princesa Isabel, estendendo-se, culturalmente, da calçada do Café São Luiz ao Sebo Vermelho, e ainda com seus tentáculos alcançando o Beco da Lama, reduto etílico do Grande Ponto.

Na verdade, não há maneira de medir onde começa e onde termina o Grande Ponto. A Cidade Alta é o próprio Grande Ponto, onde artista popular pode fazer sua performance e é lá que os poetas devem declamar seus versos. É o espaço perfeito para cantigas de cordel, onde os repentistas se enfrentam em desafios de viola e a multidão forma uma grande roda, todos ansiosos pela peleja da música sertaneja.

A avenida Rio Branco é via preferida por todo aquele que quer exprimir seu descontentamento com o governo. Seja estudante ou grevista, ele faz seu protesto em pleno Grande Ponto e a repercussão é sentida por toda a cidade. O calçadão da Rua João Pessoa sempre foi uma arena ao ar livre, um termômetro vivo, medindo todo tipo de manifestações que há no centro.

Foto clássica da Rua João Pessoa, por Jaeci

Quando eu frequentava o catecismo na Igreja Matriz de Santa Terezinha, o point era o Grande Ponto. Quando não havia shoppings e o Alecrim – muito além da feira aos sábados – era um comércio alternativo, a Cidade Alta se convertia em uma espécie de “estacional jovem”. Nas tardes de domingo, as meninas usavam roupas do tipo “cocotas” e os rapazes vestiam calças “boca-de-sino”. Toda aquela juventude era embalada pela banda Impacto Cinco nos salões da ASSEN, dançando de rosto colado ao som de Love Hurts. John Travolta e Olívia Newton John, nos tempos da brilhantina, encantavam a galera nas telas do Cine Rio Grande.

As noites natalinas, na Avenida Rio Branco, eram cheias de glamour, a paquera rolava solta. A loja Quatro Quatrocentos era a grande atração, com sua escada rolante – a única na cidade – entupida de gente para as compras de final de ano.

Os encontros mais descabidos sempre foram marcados nas cercanias do Grande Ponto. A calçada atrás da Lobrás (antiga Lojas Brasileiras), na Rua Princesa Isabel, era o “pedaço” mais festejado. De lá, ao entardecer, as pessoas buscavam o pôr do sol na Pedra do Rosário, para contemplar a beleza daquele momento, vendo o sol cair mansamente, escondendo-se nas dunas da Redinha, do outro lado do rio Potengi. O vinho Jurubeba, de mão em mão, era bebido na boca da garrafa, embriagando aquelas testemunhas do crepúsculo aos pés da Santa.

Ao lado da Pedra do Rosário, no Largo da Misericórdia, as quadrilhas improvisadas de São João sempre foram tradicionais na Cidade Alta. Atraíam toda a vizinhança dos outros bairros – reunia mais gente do que na procissão de Nossa Senhora da Apresentação, em novembro. Das Rocas até as Quintas, todos esperavam o ano inteiro por duas semanas de festejos juninos, uma espécie de confraternização entre xarias e canguleiros. A festança seguia dia e noite com muita pamonha, canjica, milho assado e forró de pé-de-serra.

Hoje em dia, com o crescimento natural da cidade, os valores se transformam, nascem, em cada esquina, outros pontos de agitação juvenil. A Cidade Alta continua se adaptando a uma nova realidade, vivida por comerciantes e moradores que permitem a transição constante do Grande Ponto. Já não há mais as festas juninas no Largo. Os namorados preferem as praias e lugares mais longínquos. A moçada jovem, do novo milênio, quer sair pulando atrás do trio elétrico no Carnatal, esquecendo os blocos carnavalescos e tribos de índios que desfilavam na Avenida Deodoro da Fonseca. O centro resiste, camelôs e lojistas dividem glórias e amarguras na disputa pelo freguês habitual. O badalar do sino da Igreja do Galo continua preciso e atento às mudanças da Cidade Alta.

O centro de Natal, apesar dos shoppings centers, ainda é o coração financeiro da cidade. Os grandes bancos, lojas de roupas, magazines, sapatarias e lojas de eletrodomésticos, estão reunidos nas adjacências do Grande Ponto, formando um setor comercial importante para Natal. Durante a noite, quando a cidade adormece, o Grande Ponto abriga todos os problemas de uma cidade em crescimento.

Os “sem-teto”, que, na sua maioria são imigrantes do sertão, procuram as marquises das lojas para se protegerem da chuva e do vento frio que vem do mar. Os notívagos, em busca de aventuras e prazeres desordenados, encontram nas meninas de vida fácil companhia momentânea para preencher a alma. Vigias circulam entre os prédios com seus apitos, guardando as vitrines para mais um sábado. Ao amanhecer, somente os vendedores de cachorro-quente podem lhe salvar da fome e da sede, testemunhando juntos a vida no Grande Ponto, que nunca dorme.

A cultura natalense é mais expressiva no centro da cidade, de onde surge o encontro de intelectuais e artistas, os quais perambulam, entre livrarias e sebos, em busca de inspiração e conhecimento. A calçada do Café São Luiz sempre foi o lugar preferido do meu avô Arnaldo, aonde as principais “resenhas” dos acontecimentos da cidade chegavam primeiro. Atualmente, o Sebo Vermelho reúne, em dias de sol forte, os homens mais relevantes da nossa cultura. Entre goles de café e a busca pelo bom livro, enquanto discutem ideias, eles escrevem a história ainda viva do Grande Ponto.

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Texto originalmente publicado no livro: Cantões, Cocadas, Grande Ponto Djalma Maranhão. Organizado por Eduardo Alexandre Garcia.
alex gurgel

Fotógrafo e viajante

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