Vem aí o Festival da Música Potiguar, nesta sexta na Pinacoteca


O Festival da Música Potiguar acontece em comemoração aos 20 anos do Sebo Balalaika

Se o Festival Woodstock marcou uma geração provocado pelo clima de paz e amor desejado para aquela época, o Festival da Música Potiguar (FMP), agendado para esta sexta-feira, às 19h nos jardins da Pinacoteca, também promete aura semelhante, seja pela situação política do país, seja pela carência daquela paz e amor da nostálgica década setentista.

O engajamento dos artistas já tem sido surpreendente. Antes confirmados “apenas Pedro Mendes, Babal, Terezinha de Jesus e Mirabô, bastou o buchicho do festival para outros comprarem a ideia. E Isaque Galvão, o lendário Raul Cruz do Alcateia Maldita, Reinaldo da Banda Anos 60, o Balalaika Brega Band e outros também integrarão o setlist. É saber quem queimará a guitarra no palco.

E por que esse festival no centro da cidade? O motivo é nobre. Uma verdadeira entidade da Cidade Alta, o Sebo Balalaika completará 20 anos. E por trás do sebo, hoje também um estúdio badalado por músicos e instrumentistas, está o produtor do evento, Severino Ramos e seus 40 anos fincados no berço dos xarias. Um produtor cultural que viu, ouviu, presenciou e fez acontecer por aqueles chãos boêmios.

Ramos assistiu o boom e a decadência do comércio na Cidade Alta. Viu o nascer de artistas, como Khrystal, foi ancoradouro da trajetória de outros, como Pedro Mendes, e teve até como garçonete e gerente em seu antigo bar, a cantora Cida Lobo e o artista plástico Pedro Pereira. E incansável na idealização de projetos, Ramos pretende dar o start na sua volta à produção de eventos com este Festival da Música Potiguar.

O FORREST GAMP DA CIDADE ALTA

As acontecências da Cidade Alta nas últimas quatro décadas passaram pelos olhos desse Forrest Gump do Centro Histórico de Natal. Um personagem discreto, mas sempre presente, sempre amigo, sempre um boêmio e um comerciante da Cidade Alta. Hoje, o seu quartel general – o Sebo Balalaika – é mais do que acervo de livros, vinis e instrumentos musicais, mas também galeria ativa de exposições de artes plásticas, estúdio de gravação e, principalmente, ponto de encontro de artistas de ontem e de hoje que se amontoam ali para pocket shows, para papear e beber, em verdadeira confraria cultural.

Ramos conta hoje 57 anos, sendo 39 de Cidade Alta. Pertence à linhagem de figuras emblemáticas do Centro: os saudosos Nazi e Helmut, e quem ainda conta história: Pedro Grilo, Osório, Nazaré, Lula Belmont, Abimael. Mas nenhum deles se misturou tanto aos artistas. Uma amizade construída desde as peladas de futebol nos campinhos do bairro de Lagoa Seca, ainda na adolescência. A escalação do time Ipiranga Futebol Clube viria a ser mais tarde uma seleção de músicos: Nagério, Raul e Fernandão (Alcateia Maldita), o futuro médico e boêmio do Centro, Zizinho… E adivinha: Ramos era o roupeiro da equipe. Desde os tempos áureos já cuidava da logística dos músicos.

POR TRÁS DOS DISCOS, FILMES E TELAS

E foi nessa trajetória de bastidores, de coadjuvante, que hoje Ramos virou protagonista. Mas de quê? Explico depois. Vamos ao início, depois de se mudar de Nova Cruz para Natal aos três anos. Começou a trabalhar com livros na adolescência. Passou pelas livrarias Independência e Opção até chegar à Universitária, já no centro da cidade, em 1978. Lá, aos sábados, acontecia sabatinas com intelectuais, como Luís Carlos Guimarães, Sanderson Negreiros, Inácio de Magalhães Sena, o jovem Vicente Serejo… E Ramos montava mesa com as novidades literárias da semana e servia uísque e caipirinha aos notórios do dia. Seu chefe do setor era Antônio Capistrano. E assim foi até 1986.

Ramos, no Sebo Balalaika. Foto: Ricardo Nelson

Nessa época, o hoje sebista e editor Abimael Silva trabalhava na Discol, uma conhecida loja de discos do Centro. E Ramos em meio aos livros na Livraria Universitária. A permuta de discos e livros iniciou a coleção de ambos. Mas a trajetória dos dois foi interrompida com o mesmo propósito totalmente fora de contexto: os malucos foram ser bancários! Abimael no Unibanco, e Ramos, no Banco Econômico. Mas a carreira foi curta, para o bem da cultura e dos clientes (imaginou Abimael, com aquela paciência, atendendo?). Fim da vida burocrata e Abimael começou no ramo sebista. E Ramos montou o Balalaika Bar, em pleno Beco da Lama. O roçoi começava ali.

Ali no Beco, Ramos montou um espaço cultural chamado Jorge Fernandes – uma rua com sebos, cafés, feirinha, que culminava no “Balalaika” – nome em homenagem ao poema de Maiakovski e com arte estampada na fachada do bar elaborada por Afonso Martins, depois um reconhecido artista visual. O bar bombava, segundo Ramos, muito incentivado pelas matérias semanais provocadas pelo jornalista Carlos de Souza, entusiasta do local e então repórter de noticiário de TV. Mas a efervescência era tamanha que faltava tempo para a família, e Ramos resolveu vender o bar para… o próprio Carlos de Souza. Ramos lembra do dia:

“Carlão chegou com um saco de pão com 120 mil cruzeiros dentro e disse: ´Pegue. Agora, eu quero que Pedro Pereira (artista plástico) continue gerente do bar´. Eu disse: ‘Fique com Pedro, com os garçons, com tudo´. E o bar aumentou ainda mais o movimento, até um acontecimento trágico: mataram um suíço na frente do bar. Carlão ficou desgostoso com o acontecido e três anos depois de ele me comprar, o bar fechou”. Com o dinheiro entregue contadinho no pacote de pão, Ramos abriu o Sebo Balalaika, duas casas antes de onde hoje funciona o Bardallos, na rua Gonçalves Lêdo, hoje um ponto fechado onde funcionava jogos de azar.

O Sebo já começou com comércio de telas, bom acervo de livros e instrumentos musicais. E foi ali, em 1993, que Ramos organizou as primeiras exposições individuais de artes plásticas, sempre acompanhadas de pocket shows na frente do estabelecimento. “Me dava um rendimento bom. Eu tinha até patrocinadores. A Adega do Vovô tinha um dono entusiasta da cultura e sempre me cedia duas caixas de vinho. Eu ia lá pegar e distribuía para quem chegasse ao sebo”, recorda. Esse ponto durou cinco anos, até 1998, quando se mudou para a atual “morada”, mais adiante, na Vigário Bartolomeu, com a mesma proposta de miscigenar as artes em um mesmo ambiente.

“Bom lembrar que antes do primeiro Sebo eu comprei uma cigarreira a Abimael, aqui nas proximidades, vendida depois a Ricardo Brito. Nessa época, para me ajudar, Luís Carlos Guimarães, então diretor da Fundação José Augusto, me deu mil livros. Ele gostava de mim desde a época das sabatinas na Livraria Universitária. E ele me cedeu porque reconhecia minha prática na disposição dos livros, ao contrário de outros sebistas da época, que amontoavam tudo num canto. E quando montei o Balalaika, ele me deu outros mil. Por essa época, eu, Abimael e Jácio comprávamos muitas bibliotecas juntas: a de Gumercindo Saraiva, de Esmeraldo Siqueira…”.

RAMOS E PEDRO ABECH

Ramos, Abimael e Jácio também promoveram, por 11 anos, a Feira de Sebos, na Praça Sete de Setembro – uma verdadeira feira cultural, com shows, gastronomia e muitos livros. Essa veia de criar, produzir e, sobretudo, ajudar, acompanha Ramos nessa trajetória. Como citado, Cida Lobo era garçonete do Balalaika Bar. “Ela olhando Geraldo Carvalho cantar num palco em meia lua que só cabia o cantor mesmo, eu reclamava com ela: ‘Cida, olha o cliente!´. E ela me respondia: `Eu queria cantar´. E abri o espaço pra ela também”. Nesse instante da conversa, outro dinossauro da Cidade Alta, Pedro Abech, chega e interrompe a entrevista, já salpicada por tantos vai-e-vens de artistas para falar com o amigo, e também pelo som do palco montado na entrada.

“Pedro também tem história aqui no Centro”, levanta a bola. Eu ratifico e lembro ter sido no Abech Pub o primeiro palco de Khrystal. “Isso. Khrystal tocava lá com a guitarra de Pedro, rasgando os dedos literalmente, porque eram cordas velhas. Depois fiz muito som com ela. Quando ela se distanciou mais de Pedro Abech, fui colocando ela pra tocar em alguns locais, tipo o Castelinho. Ela é muito minha amiga hoje, uma pessoa maravilhosa. E Pedro é um dos grandes responsáveis por esse movimento musical no Centro”. No que o amigo completa: “Nós somos!”.

DO SÁBADO DE RAMOS E UMA VEIA BREGA

Após tantos projetos culturais, feiras de sebos e até bloco de carnaval, Ramos tem mantido o singelo Palcuzinho, assim mesmo, com U, para ironizar a singeleza dos shows semanais produzidos com estrutura mínima, sempre aos sábados. Com som próprio, não faltam artistas para chegar e cantar. Durante a curta entrevista, Carlos Bem era o nome da vez. Na semana anterior era Pedro Mendes.

Um amigo dos artistas. Foto: Gustavo Silveira

Mas Ramos quer resgatar o Sábado de Ramos – nome sugerido pelo poeta Lívio Oliveira. São homenagens a poetas potiguares, com shows em um Palcuzinho mais estruturado, comida típica preparada na hora e distribuída gratuitamente, cartazes com as poesias do homenageado pregadas nas paredes e o microfone livre para os recitais. Foram cinco edições. Os homenageados foram Jorge Fernandes, Zila Mamede (paraiguar), ao amigo Luís Carlos Guimarães, Bosco Lopes e Deífilo Gurgel.

A próxima empreitada é o Festival da Música Potiguar. O projeto terá esta primeira edição, sem promessas para uma segunda, apenas a vontade de manter a ideia a depender dos apoios. Para esta edição, contou com patrocínio do deputado estadual Fernando Mineiro, da senadora Fátima Bezerra e de sindicatos. O ingresso a R$ 10 servirá para cobrir outras despesas.

Há cerca de um ano a ideia era o Rock in Rio Potengi, também na Pinacoteca e com cinco edições pré-programadas. Infelizmente contratempos interromperam o projeto, que também já contava com grande adesão da classe artística, sobretudo a roqueira.

Mas o rock não tira a veia brega de Ramos. “Trabalho como técnico de som desde os 18 anos. E nisso trabalhei com Fernando Luiz, com Gilliard, os bregas todos. Não à toa fundei a banda Balalaika Brega Band”, tendo à frente o compositor Tertuliano Aires, o homem por trás do pornofônico personagem Cabrito. “E também meu maestro soberano, que não é Antônio Conselheiro, mas é Franklin Nogvaes, amigo e parceiro de longas datas (risos)”, conclui Ramos, para enaltecer a amizade.

E com tantos clientes, e músicos, e amigos e demandas para um embalado sábado, precisei concluir o papo. “É sempre assim aqui, cara. Se não faço nada a galera vem do mesmo jeito. E aí vem comida, doações, gente pra fazer um som. Glorinha Oliveira vem muito. Acho que ainda tenho esse prestígio com a galera”. E eis aí a resposta para o seu protagonismo. Ramos é, sem dúvida, um ator principal de qualquer capítulo da extensa novela do Centro da Cidade.

sergiovilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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