[ENTREVISTA] Fernando Anitelli volta a Natal para show sem o Teatro Mágico


Fernando Anitelli volta a Natal essa semana para show solo, embora use o nome da trupe Teatro Mágico no nome. Repertório de canções inéditas, mas também de tantas canções que encantaram o público na década passada a partir de um trabalho independente original. Não só pela ousadia até então pouco vista na cena musical ainda atrelada à indústria fonográfica, mas também por aliar ao som, o circo e o teatro.

O Teatro Mágico fez história, mas tudo teve início no álbum solo de Anitelli (inspirado na leitura do livro “O lobo da Estepe” de Herman Hesse) e em suas apresentações de voz e violão realizadas em diversos locais. A construção do primeiro CD “Entrada para raros” foi baseada justamente nas canções, poesias e batidas, até então, entoadas em saraus. E assim Anitelli decidiu repetir as origens neste novo show.

Em 2007 estive na 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará. E apesar de entrevistas com o então expoente Victor Ramil, o mito Chico Anysio e outros bambas, a experiência com o Teatro Mágico foi ímpar. Não só tive exclusividade com o Anitelli pós-show, como embarquei na van com o grupo para lanchar na orla de Fortaleza. Na entrevista abaixo fica latente a época da polêmica em torno dos downloads gratuitos de músicas. A entrevista foi publicada no saudoso O Poti. Vale a leitura.

TEATRO MÁGICO PARA TODOS

O respeitável público pagão assistiu no primeiro dia da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará um relâmpago de otimismo, poesia e magia. E nem precisou assistir tudo da pedra mais alta. O Centro de Convenções foi o palco ou a lona imaginária de um circo musical revolucionário.

A trupe paulista do Teatro Mágico é renovação de um desejo de vida apagado neste novo século ou nas últimas décadas. É música alternativa, opinativa e sugestiva. E a pedida é pintar a cara em tons alegres de vida para despertar a fantasia e fazer dormir o medo.

O letrista, cantor e violonista Fernando Anitelli se mostra o Renato Russo dos novos tempos. Menos pop. Mais didático. É um porta-voz de uma juventude antenada e antes de tudo desejosa de mudança; de esperança e revolução – revolução da comunicação.

A poesia do Teatro Mágico dispensa o otimismo barato e hipócrita, ou a mídia massificante. Ela é realista com as dores do mundo e sugere escapatórias por um caminho mais ameno: o da poesia musical; da magia circense; da fantasia não alienada e torpe. É a proposta de um novo vislumbre de encantamentos.

Usarei da primeira pessoa para descrever os instantes junto à trupe. A espera pelo fim do show rendeu um contato mais próximo e talvez sirva para desmistificar a polêmica apresentação do grupo em Natal. Consegui furar o bloqueio da produção e assisti tudo do palco. Combinei com a Maíra uma entrevista de “três perguntas rápidas” com Anitelli. Foi muito mais. Maíra escreveu um livro de 22 contos inspirados nas letras musicais do TM.

Diante da espera pelo fim do show, perdi o único transporte de volta ao hotel onde jornalistas e artistas convidados para a Bienal estavam hospedados. Mas eu tinha uma oportunidade fantástica de entrevista pela frente.

Anitelli estava sem pintura no rosto quando tive acesso ao camarim. Ele perguntou se a entrevista seria naquela hora. Sugeri que priorizasse as fãs que se acotovelavam no saguão do Centro de Convenções. Foram 30 minutos de autógrafos, fotos e abraços, para desespero da produção e dos seguranças.

De volta, abordei Anitelli no mesmo palco da apresentação, quando conversava sentado com o violinista do grupo. Descobri um Anitelli sem máscara de clown e com tique-nervoso de piscadas constantes e abruptas, bem afeito a entrevistas e com prazer de comentar o trabalho do TM.

Mais tarde, voltei ao hotel na van do grupo. Informei que havia perdido o translado e eles me convidaram para lanchar/jantar com eles numa sanduicheria na praia de Iracema, após o show extenuante, lotado de pessoas “raras”, como sugere o título da música “Teatro Mágico, entrada para raros”.

E os raros são soldados de chumbo e bailarinas de brilho nos olhos. Diferente de expressões em transe dos espantalhos, corrompidos pelo exagero-pop da massa, de sonhos roubados e falsas alegrias.

Os da geração anos 70 talvez entendam o que escrevo. Eles viveram as raízes das delícias e horrores deste novo século. Alguns deles estiveram no show acompanhados da família. De certo viram naquela vitamina musical um recomeço; uma nova tentativa experimental mais madura e consequente.

A geração anos 70 quis evitar a intermediação. Eles experimentaram um abandono completo e assumiram a captura do momento fugaz de forma intensa. Não tinham a intenção de transformação ou revolução. Não eram experiências para serem lavradas em atas ou livros de história. Eram para serem carregadas no mais fundo da alma.

“Não, não é uma estrada, é uma viagem”, cantavam os Mutantes. E o Teatro Mágico é isso: uma proposta democrática de aceitação a um mundo mais leve, “sem deixar que a vida escorregue”.

ENTREVISTA

Sergio Vilar – Você é artista plástico, escreve poesia, crônica. Porque escolheu a música para mostrar sua arte?

Fernando Anitelli – Minha história com as letras começou desde os 14 anos, quando ainda gostava de rimar amor com humor. Sempre estive envolvido com arte, literatura e desenho. Tenho até dois personagens meus de quadrinhos tatuados no braço: o Téo e seu melhor amigo, o Farol. Quando comecei a frequentar saraus percebi pessoas falando a mesma língua e pensei: porque não levar o espírito dos saraus para um projeto onde todos sejam um personagem só?

Em Natal vocês se apresentaram com menos da metade do grupo e aqui vieram apenas quatro integrantes. Por quê?

São 25 pessoas. É complicado viajar com todo mundo. Veja que aqui fui convidado para um show acústico, voz e violão. Tentei trazer o formato mínimo e fiquei impressionado com a qualidade do show. Mas fazemos o que pudemos. Depende muito do tamanho do palco, das condições oferecidas.

Foto: Milton Dória

Você trabalha com várias vertentes artísticas. Quais suas influências?

De tudo um pouco: no teatro, a Denise Stoklos e Plínio Marcos; na música, Secos e Molhados, Chico César, Zeca Baleiro, Legião Urbana, Raul Seixas. Tudo isso é filtrado em nosso projeto. E tem famílias vindo assistir. Fico feliz. Somos um circo contemporâneo e conseguimos alcançar essa catarse coletiva.

Vocês também são comparados ao Los Hermanos…

Talvez em função do relacionamento com nosso trabalho: somos muito verdadeiros no que fazemos. Gosto muito do Los Hermamos. Eles têm uma melancolia no samba, influências de Noel Rosa, Cartola. Mas o que é revolucionário nisso tudo é a juventude vestir a camisa da música independente. Precisamos de mídia assim: mais rádios comunitárias, teatro de rua, festivais patrocinados pelo poder público. Revolucionário é ter acesso livre à arte pela internet, trocar MP3 de forma livre. Nos Estados Unidos uma lei compara a prática à pedofilia.

A internet é o meio de divulgação de vocês?

Sem dúvida. Uma porção de artistas vivem desse meio. A TV não abre espaço para nós. Nunca fomos convidados nestes programas que dizem “ponto para os homens e ponto para as mulheres”. É preciso novo mercado mais aberto, democrático e interessante para não engolirmos a tormenta semanal.

Vocês disponibilizam seus trabalhos na internet e até fazem apologia à “pirataria saudável”; são um expoente da música independente, mas as senhas para os shows do TM são caríssimos. Não é contraditório?

É a maneira do grupo se manter. Nosso CD custa cinco reais; como você disse disponibilizamos tudo na internet. E queremos viver da arte. Isso não é discurso new-hippie. Se o ingresso custa 40, 50, tem a possibilidade da carteira estudantil. Também doamos fundos a asilos, bibliotecas. E são 25 pessoas no grupo. Tentamos nos organizar da melhor maneira para oferecer um espetáculo diferente, de qualidade, adequado à estrutura do lugar.

Qual a revolução possível nos dias de hoje?

A da comunicação. Não temos democracia nos canais abertos. As TVs e rádios vivem de patrocínios. Temos que pagar o tempo de veiculação da nossa música como se fosse anúncio. Concorremos com comerciais de chinelo. Os canais não estão preocupados em informar; apenas de entreter. Precisamos debater mais essa questão. Nossa realidade não é a da TV aberta e do ciclo de bundas mostrado em programas e até em comerciais de cerveja. Precisamos fugir do marasmo cultural e batalhar por novos espaços.

Vocês se vestem de clowns nas apresentações, mas porque o palhaço é a figura central?

Desde a comédia medieval o palhaço reproduz a pluralidade do ser humano. Por si só ele é um espetáculo: mistura inocência e malandragem; é angelical, mas é meio escroto, também. E é cem por cento disposto no que faz: joga a cara na farinha, faz estripulias no palco. Ele traz o movimento, a bagunça, o silêncio e proporciona o caos. Sempre há algo novo a se descobrir no palhaço. O Herman Hesse escreveu (no livro O Lobo da Estepe) que somos únicos não por sermos um em um milhão, mas por sermos um milhão em um. Somos seres plurais.

O palhaço é o ator alegre do circo, mas encontra a melancolia no espelho do camarim. Fernando Anitelli também é assim?

Sou sempre o que sou no palco ou fora dele. A diferença é a maquiagem. Hoje me vejo mais caseiro, buscando mais silêncio, leitura. Pela exposição acabamos atrás de um contraponto para equilibrar. É o nosso suicídio diário no sentido de renascermos. O Teatro Mágico é pra mim um refúgio; uma possibilidade de amadurecimento; de debate e de popularizar o que já é popular.

Você se julga um trabalho revolucionário?

O Brasil sempre se pintou, sejam nas manifestações populares ou no teatro, como o Saltimbancos; a Arca de Noé. Tem o Antônio Nóbrega, Os Trapalhões. Não é novidade. Apenas fazemos à nossa maneira.

Quem são as pessoas “raras” que você reúne ou gostaria de reunir na plateia? São aqueles fãs que pediram autógrafos ao final do show?

Temos que ter cuidado para não traduzir isso de forma pejorativa. Só a gente para sentir as dores e alegrias do nosso cotidiano. Veja que hoje tinham famílias inteiras nos assistindo. Nunca programamos isso: um nicho de mercado. Fico feliz que as crianças gostam do figurino, da bagunça, do malabarismo; os adultos e mais velhos apreciam a crítica, as letras e arranjos e acompanham o amadurecimento textual, e todos eles participam dessa sintonia em relação ao nosso projeto. Então, todo mundo é raro. É como Chico Buarque disse no seu álbum, Para Todos.

sergiovilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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