[ENTREVISTA] Meu encontro com Belchior no camarim do TAM


Belchior sabiamente sumiu do mapa. Não bastavam canções diferentes, adornadas pela nostalgia de um tempo de roupas coloridas, dedos em V. O hoje sempre foi doloroso para Belchior. E sempre me identifiquei com suas músicas, sua filosofia. Quando migrou para seu mundo recluso apenas entendi e concordei. Pensei fazer igual , mas no fim das contas apenas fiquei um tanto órfão. Sobraram as lembranças daqueles minutos no camarim do Teatro Alberto Maranhão, no finado Projeto Seis e Meia, em alguma data de maio de 2006. Recordações, agora, ainda mais latentes, raras à minha memória. Uma entrevista publicada no jornal e imagens para toda uma vida. Salve, amigo Belchior!

“Infelizmente ainda somos como nossos pais”

Ele não é apenas um rapaz latino-americano ou um cidadão comum, como admitiu ser, em entrevista exclusiva ao Diário de Natal após sua apresentação no Projeto Seis e Meia. Belchior é um poeta musical, autor de letras que marcaram e marcam gerações. A brasilidade de suas composições e a universalidade das mensagens contidas nas letras que canta ainda atraem um público cheio e heterogêneo. E parecem mostrar que a nordestinidade misturada à poesia tem mesmo vida longa.

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, 59 anos, é filho de uma típica família nordestina de 23 filhos. O contato com a música veio de infância. Seu avô o levava às feiras livres da cidade de Sobral, no Ceará, onde nasceu. Lá, Belchior assistia duelo de repentistas, violeiros, ciganos violonistas e sugava o que a poesia regional e musical podia oferecer. A mãe, coralista de igreja, influenciou sua técnica vocal.

Ao se mudar para Fortaleza ainda jovem, enturmou-se com o que viria a ser chamado de Pessoal do Ceará. Eram nomes como Fagner, Amelinha, Ednardo, entre outros. Em pouco tempo veria suas músicas vencedoras de festivais, entre 1965 e 1970. Belchior ganhou projeção nacional quando Elis Regina gravou Mucuripe, em 1972. Em seguida, ela grava Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, verdadeiros hits daquela década.

Mas Belchior parece desacostumado ao sucesso, mesmo com 35 anos de carreira. “Sou um cidadão comum”, disse. Após o show, já no camarim, atendeu a dezenas de fãs, um por um. Conversava com desenvoltura quando dos comentários sobre sua música. E parecia acanhado quando dos elogios. Embora tenha confessado não sentir saudade de sua juventude, tão presente em suas composições, sua voz, seu depoimento transmitem uma realidade amarga, de quem ainda acredita que continuamos “como nossos pais”.

Sérgio Vilar – É verdade que Belchior cantava poesia de repentes em feiras livres quando da infância?

Belchior – Meu avô me levava muito às feiras da cidade e sempre tive contato com essas músicas. Minha mãe me levava à igreja. Então, meu contato com a música começou cedo. Mas ninguém pensava em profissionalismo nessa época. Tocava-se por prazer. E o pessoal do lado da minha mãe era mais esperto para as artes. A do pai era mais severa, de sertanejos.

Então a música veio antes do curso de medicina?

Neste ponto de vista da audição da música, do gosto e do prazer de cantar veio muito antes da medicina. Mas nunca pude imaginar que viveria da música. Me imaginava professor universitário, filósofo, escritor, coisa assim.

E como Belchior se define hoje?

Sou apenas um rapaz latino americano, um trovador, um cidadão comum, um poeta raivoso.

Quais as influências que carrega em sua música?

Tudo isso que eu disse faz parte de minha formação musical. Claro que depois tive uma formação mais disciplinada. Estudei em colégio de padre; fiz canto coral; um pouco de canto gregoriano, essas coisas todas de técnicas vocais que me valeram muito.

Mas suas letras têm muito da poesia.

Meu grande desejo era ser literato. Mas em determinado momento percebi que a música popular estava sendo um veículo de poesia muito especial, intenso. E quis fazer uma poesia cantada, para suportar a palavra.

Também nota-se nostalgia e tristeza em suas letras e mesmo nas melodias.

Minha música é melancólica. Não acho que seja nostálgica. A nostalgia é justamente a dor do passado que não volta nunca mais. Então, não tenho esse tipo de dor nem em minha música.

E o passado não é uma velha roupa colorida?

(risos) Não há muito futuro a se buscar no passado, a não ser um aprendizado para não se errar de novo.

Então, não tens mesmo saudades da juventude?

Não, de jeito nenhum. Olha, eu vivo tanto o dia-a-dia que o tempo não passa. Penso sempre nas realidades que se apresentam; nos problemas que são vividos, nas realidades imediatas. E isso facilita muito uma existência mais objetiva. Ou a vida passa e a gente passa com ela. A vida é uma aventura do qual a gente não vai sair vivo.

Você acredita muito no que canta?

É um jeito que tenho de dizer as coisas que me parecem verdadeiras, em que eu acredito. É uma dificuldade para minha música, porque eu imaginei que, por isso mesmo, ela não fosse interessar a mais ninguém a não ser a mim. Foi surpresa ter canções gravadas pelo Roberto (Carlos), Erasmo (Carlos), Elis Regina, Vanusa, Antônio Marcos, Raimundo Fagner, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Los Hermanos, Engenheiros do Hawaii…

E como surgiu a ideia de musicar poesias de Drummond?

Justamente pela minha frustração de não ser poeta. Drummond simboliza o máximo da modernidade da linguagem poética do Brasil. E ele é uma personalidade tão forte nessa questão que, pela primeira vez na língua portuguesa do Brasil se tem realmente um poeta universal, como foi Fernando Pessoa, do lado de Portugal.

A música de Belchior é universal?

Espero que seja. Ou melhor, espero que se torne. Todas as músicas que adquiriram algum caráter, alguma importância, elas carregam detalhes atemporais, que podem ser cantadas como hinos de vários sentimentos, de geração em geração. Isso é maravilhoso para mim, ver a cada show uma quantidade boa de pessoas, algumas muito jovens que se interessam pela música popular brasileira e que estão imprimindo uma renovação pelo gosto da música popular, fora do estímulo da televisão, da música mais comercial.

O público de hoje foi mais receptivo ao de sua última apresentação em Natal, no teatro do Centro de Convenções? Foi um show mais intimista?

Intimista pra mim dá uma ideia de você estar ali com dois instrumentos. Ele pede essa questão de banquinho e violão e conta com participação maior do público. A música fica com aquela alma mais negra.

Você tem gravado um álbum chamado Elogio da Loucura. A intenção foi realmente uma alusão ao clássico de Erasmo de Roterdã?

Uma alusão naturalmente longínqua; um reverbero dos meus interesses literários, filosóficos. Mas no CD fazemos um elogio disso que chamamos loucura. A loucura ali tem o mesmo sentido da palavra alucinação; estamos fazendo um elogio à loucura. A loucura merece ser elogiada. No Erasmo é o contrário: é o elogio que a loucura faz a si mesma.

Ainda somos como nossos pais?

Digo isso com certa tristeza. Já era tempo que não fôssemos mais como nossos pais, porque essa música, ela faz uma análise muito amarga, muito dolente, mas um pouco medicinal, também. Apesar de a gente ter feito tudo, de termos conquistado tanta coisa é difícil você renovar o caráter, o temperamento, as condições humanas para uma nova vida, se é que isso é possível. A música fala disso: embora tenhamos feito tanta coisa, essas coisas não bastaram para que chegássemos a uma mudança cultural razoável, de modo que ainda somos assim, como nossos pais.

sergiovilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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