As Elzas de Paulo Freire

por Marcius Cortez

As Elzas da vida de Paulo Freire pertencem a dois cenários. O primeiro é o cenário real: Paulo e a Professora Elza Maia Costa Oliveira, que foi a sua primeira esposa, de 1944 a 1986, quando faleceu. O casamento gerou cinco filhos, fui testemunha do amor que os unia e do companheirismo que se completava no fato deles exercerem a mesma profissão.

Fui, aos dezessete anos, o menino do Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife, instituição que Paulo dirigia e que se constituiria no órgão de apoio ao trabalho de alfabetização de adultos em desenvolvimento em todo o país durante o governo do Presidente João Goulart.

Lembro da Dona Elza, revoltada, porque nos primeiros meses da Ditadura, Paulo era preso e solto, preso e solto, uma tática perversa, humilhar para meter medo.

Casal Elza e Paulo Freire

Pois bem, Elza começara a tramar uma solução contando com a ajuda de pessoas ligadas à Embaixada da França e em segredo nos confidenciava que “dessa vez Paulo foge nem que fosse vestido de baiana”.

Conheci Paulo Freire na intimidade. Ele gostava de almoçar com as pessoas de sua equipe. A gente sabia o risco que estava correndo, mas tratamos de arregaçar as mangas porque havia muita coisa para fazer.

Paulo era um ser de espinha de marfim, não se curvava aos perrengues. Tinha a força de quem passou por momentos difíceis. Na depressão de 29 faltou comida na casa do menino Paulo Freire em Jaboatão dos Guararapes. Essas coisas moldam o caráter, definem uma personalidade.

Paulo é um homem bom, romântico, as vezes ingênuo, mas irredutível nas suas escolhas. Um cara que abria o coração para os amigos. Um dia, ficando eu e ele, no fim do almoço, Paulo me veio com um papo de pai ciumento, eu andava me enxerindo para uma de suas filhas e como tem certas bolas que é melhor a gente não disputar, resolvi dar uma de tímido, fiquei meio arredio e logo levei um golpe na moringa, a moça me aparece com um namoradinho, ai Jesus…

Naquela época, Paulo não usava barba, sua expressão era séria, mas sem arrogância, um olhar singularmente bondoso, um riso juvenil, olhos altivos por trás de um óculos de armação grande. O Patrono da Educação Brasileira primava pela oralidade, gostava de fazer jogos com as palavras, gostava de contar causos, principalmente de seus alunos, gostava de falar bem da sua mulher e da sua família. Respeitava muito as pessoas, nunca vi Paulo dando bronca em ninguém. Logo transparecia sua faceta honesta e também a sua inevitável dose de vaidade.

Costumo dizer que ninguém trabalha com Paulo Freire impunemente. Sou, tal qual o meu mestre, feito de profundas convicções de que o mundo só será melhor se a riqueza for melhor dividida.

O que mais admirava nele? Sua emoção, ele era cem por cento emoção. É aí que entra o segundo cenário. O segundo cenário é pura imaginação minha. Vejo Paulo Freire no palco com Elza Soares. Ambos cantam “O Meu Guri” com o mesmo sentimento. Primeiro, você desaba em lágrimas. Segundo, você promete lutar para que um dia os cartazes de seu país ostentem a seguinte mensagem: ESTA NOITE 200 MILHÕES DE CRIANÇAS DORMIRÃO NAS RUAS DO MUNDO. NENHUMA DELAS É BRASILEIRA.

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Marcius Cortez

Cinco livros publicados e o jogo ainda não acabou. Escrever é um embate que resulta em vitórias, derrotas e empates. O primeiro livro de Borges vendeu apenas 37 exemplares. O gol é quando encontramos um significado que melhore a realidade.

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