Se come muito bem na literatura portuguesa de Eça de Queiroz (última parte)


No romance A Ilustre Casa de Ramires, obra de maturidade, publicada postumamente, Eça de Queiroz satiriza a nobreza de Portugal na pessoa do fidalgo Gonçalo Mendes Ramires, o jovem senhor da Torre, que se esmera em escrever uma novela histórica exaltando os feitos heróicos dos seus antepassados, com os quais pretende ombrear-se.

Na verdade, Gonçalo Mendes Ramires não passa de um caráter falho: covarde e mesquinho, embora, às vezes, tenha uns rasgos de coragem e generosidade. Interessante é que, num exercício de metalinguagem avant la lettre, Eça intercala, no correr da narrativa, capítulos da novela engendrada pelo seu personagem. No final, subentende-se que Gonçalo Mendes Ramires constitui uma alegoria do próprio Portugal, o país então decadente e nostálgico dos seus tempos de glória.

Ao contrário do que ocorre em outro romance da última fase do autor, A Cidade e as Serras, Eça não se compraz em descrever iguarias da culinária típica portuguesa. Vários almoços e jantares surgem ao longo da narrativa, é verdade, no entanto, sem que os respectivos menus sejam pormenorizados. Por vezes há referências tão-somente à entrada e à sobremesa. Num jantar em homenagem ao André Cavaleiro, governador civil do Distrito de Oliveira, onde se passa boa parte da ação romanesca, vários personagens conversam animadamente e tomam bastante vinho.

André Cavaleiro “recusara a sopa (Oh, no verão nunca comia sopa). (…)”. Barrolo, o dono da casa, anfitrião prestimoso, estende o braço, com efusão e oferece ao amigo um vinho proveniente de sua propriedade rural.

S. Exa. provou com devoção, como se comungasse. E com uma cortesia compenetrada para Barrolo que reluzia de gosto:

-Uma delicia! uma verdadeira delícia!

(…) “Barrolo exultava. O seu desgosto era que Gonçalo nunca honrasse “ aquele néctar”. Não ! Gonçalo não tolevara vinhos brancos.”

Gonçalo só se satisfazia com vinho verde, “assim um pouco espumante, com gelo…”

A certa altura da conversação o espanto do Fidalgo era como o republicanismo alastrara em Portugal – “até na velhota, na devota Oliveira” ( …) Um dos convivas, o Mendonça não receava a Republica, grace java:

“- Ainda vem longe, muito longe… Ainda nos dá tempo de comermos estes belos ovos queimados”.

Como se vê, nenhuma alusão aos pratos principais do jantar.

-Ovos queimados, anote-se, é uma sobremesa à base de ovos batidos em calda de açúcar.

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Também não se encontra n ´A Ilustre Casa de Ramires a descrição do menu na seguinte passagem:

“Gonçalo farejara, arredara os ovos. E reclamou o “jantar de família”, sempre muito farto e saboroso na Torre, e começando por essa pesadas sopas de pão, presunto e legumes, que ele desde criança adorava e chamava de palanganas”

O Dicionário Enciclopédico Ilustrado Veja/Larousse define a palavra palangana como “comida malfeita”, dentre outras definições que não vêm ao caso (tigela grande etc.) Parece-nos que, no sentido que lhe dá Eça, trata-se de algo semelhante a açorda, prato infalível, ainda hoje, na ementa de muitos restaurantes portugueses.

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Encontrando-se, certa vez, com Gonçalo, o Titó, “ seu vago parente e seu companheiro de Vila Clara”, convida-o a jantar:

“- (…) Temos uma tainha assada, uma famosa. E enorme, que eu comprei esta manhã a uma mulher da Costa por cinco tostões. Assada pelo Gago !.”

. A tainha, diga-se de passagem, é muito apreciada em Portugal,

Páginas adiante, encontramos uma outra referência a esse peixe afamado:

“… a ceia foi muito alegre, muito saboreada. Gonçalo (…) começou por uma pratada de ovos com chouriço, devorou metade da tainha, devastou o seu “frango de doente”, clareou o prato da salada de pepino, findou por um montão de ladrilhos de marmelada, e através deste nobre trabalho, sem que a fina brancura da sua pele se afogueasse, esvaziou uma caneca vidrada de Alvaralhão”

Para quem não sabe, Alvaralhão é um vinho feito com uva tinta das regiões do Minho, Douro e Beira.

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Tal como a tainha é a sardinha uma especialidade da cozinha lusitana.

Certa vez, a Rosa, velha cozinheira da Casa da Torre, “ aos brados galhofeiros do fidalgo acudiu, limpando as mãos ao avental. O quê ! dois convidados ! Mesmo quatro, e mais valentes, que graças a Deus Nosso Senhor o jantarzinho sobrava ! Ainda de tarde comprara a uma mulher da Costa um cesto de sardinhas, graúdas e gordas que regalavam!… O Titó reclamou logo uma fritada tremenda de sardinha e ovos.”

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No Brasil come-se pouquíssimo coelho. Por quê ? Eis uma pergunta que não quer calar… Já em Portugal o coelho tem a preferência de nove entre dez gastrônomos… Arroz de coelho! Que delicia!

Na taberna famosa do Pintainho, “ os caramanchões do quintal e a nomeada do coelho guisado atraem vasto povo nos dias de feira em Veleda.

Nessa manhã o Titó depois de uma madrugada às perdizes em Valverde, aparecera na Torre para almoçar, urrando, de esfomeado. Era sexta-feira – a Rosa preparara uma pescada com tomates, depois um bacalhau assado, formidáveis. E Gonçalo, toda a tarde torturado com sede, mais ressequido pela poeira da estrada, parou avidamente diante do portão da venda, gritou pelo Pintainho.

– Oh meu Fildago!…

– Oh Pintainho ! depressa! Uma sangria! Uma grande sangria bem fresca, que morro….”

A sangria, bebida preparada com vinho, açúcar, água , limão e pedaços de outras frutas, tem largo consumo em Portugal e Espanha, mas quase nenhum no Brasil.

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Quem não gosta de bolos de bacalhau?

“Ceia pacata – contou o Titó com a seriedade que lhe merecia a festa das suas amigas – A D. Casimira tinha uma bela frangalhada com ervilhas. O João Gouveia trouxe do Gago uma travessa de bolos de bacalhau que calharam…”

Mas, o fidalgo da Torre parecia não gostar de bolos de bacalhau. Vejamos o que ele diz ao seu amigo Titó:

“- Ó infame!… Então noutro dia assim me larga, sem escrúpulos, depois de eu lhe preparar um cabrito estupendo, assado num espeto de cerejeira? E para quê?… Para uma orgia reles, com bolinhos de bacalhau e bichinhas de rabear!”

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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