Faixas d’amores infinitos: … te amo!… te amo porra!

Croniketa da Burakera #10

Que haja a hipótese de outros amores.
Amores de muitos rostos. Amores de multicenas e ziriguiduns.
Cada um na sua própria e infinita intensidade de sonho, ternura, fiesta y loca pasión.
Num mesmo tempo de vida, talvez. Embora nunca num mesmo agora, of course.

Que esse agora seja pois somente enrosco a dois. Um pas-de-deux único.
Que seja rolo de namorâncias e esfregâncias… entre heteros, homos, bi, tri, trans, casados, enredados,
amizades coloridas e descoloridas… por aí

Que, olhando nos olhos, se vejam deslizar no infinito de cada um faixas d’amores com o doceterno mantra das gamações chapadas de todas as épocas: eu te amo!

Ainda que esse “eu te amo!” seja mix d’amores-quase-perdidos nas distâncias, nas ciumeiras, bobeiras
e arrêgos; e tanto que tanto… até se tornar faixa-sauvage d’amor-encanado e mordido: “te amo, porra!”.

Que – com porra ou sem porra – todas as faixas d’amores inescapáveis sejam sempre na vida real maravilhosa lokera absurda.
Pois como pode um Amor pra valer não ser louco de pedra? Se o Amor é a doença mais saudável que existe, meus cumpadis.

e vamuquevamu numa nice… chega mais, mô… quem te ama tanto quanto eu te amei? (clic)… diga-aí-diga… diga não, mô

Que seja até – o Amor – delírio obsessivo dum donjuanismo incurável: onde rola o doce-canalha mantra da pegação
desembestada: “amo todas”.

Camus, esse extraordinário romancista-desfilósofo, em “O Mito de Sísifo – ensaio sobre o absurdo“, 1942, diz que
a galinhagem de Don Juan não é puro vuco-vuco machista, como pensa a oposição moralista. E os machões de raiz.

A xavecagem de Don Juan, segundo Camus, por absurdo que pareça, é dom-e-doença afetivos profundos.
Transbordamento incontrolável do ego para se compartilhar com o alter ego da mulha mais próxima. Um socialismo do amor.

O macho casca-grossa come a fêmea. Don Juan é cavalheirobandidorefinado: ele degusta a amada. Saboreia seus mistérios.
Arrancando de cada uma, não só o gozo carnal, mas também o gozo do coração e da alma.

Daí que, em Don Juan a bipolaridade amor e sexo se torna nobre cavalheirismo de artepoesiafilosofia em contínuos
delírios e sobrepassos dum libertino romantismo carnespiritual.

“Por que seria preciso amar raramente para amar muito?” – pergunta-se Don Juan.

Ou seja: amar muito não é só amor intenso por uma só pessoa: mas também amor extenso por porrilhões de pessoas:
todas as vezes: com todas: com tudo: apesar de tudo: em todos os tempos: para além-de-absurdos: é espalhamento
generoso da boa energia do amor: forever and ever…

Para Camus, Don Juan é um homem absurdo que leva ao absurdo a natureza absurda do amor. Daí também sua surpreendente
louca sabedoria messiânica bipolar: “esse louco é um grande sábio
, comenta Camus.

Em Don Juan DeMarco (filme com Johnny Deep, Marlon Brando e Faye Dunaway, 1955), Leven e Copolla, diretor e produtor,
fazem uma excelente paródia desse amor expanso e delirante de Don Juan.

É desses filmes que vez em quando é preciso dar um repeteco. Johnny Deep, vocês lembram, é o Don Juan, um serial-lover,
louco de pedra e taradaço, porém romantiquérrimo.

Logo no inicio do filme Don Juan DeMarco, marca seu delírio: “Sou o maior amante do mundo! Aos 21 anos amei 1502 mulheres.
“Nunca me aproveito delas. Dou-lhes prazer se assim o desejam”
.

Olho-no-olho, em close, voz morna, charme irresistível, segura delicadamente as mãos das madamas-a-perigo e diz que toda
bela mulher tem dedos tão sensíveis quanto as pernas.

Daí beija as pontas dos dedos indicador-médio, dizendo que é como se beijasse os pés da madama. Sobe mais um pouco e
beija-chupando-leve a junção indicador-médio, murmurando que assim gostaria de beijá-la entre-coxas, na alcova.
Numa palavra: chupá-las até o bagaço-uivante. As madamas ficam molhadinhas. Pois bem: ganhou todas.

A propósito, é preciso que se registre sempre – pela beleza – a cena final desse filme: uma dança na Ilha de Eros.
Fundo musical: Have ever had you really love a women? (clic): um belo single soft-rock romântico: dançado por um anti-estético
casal de velhudos que sacodem a ferrugem doméstica numa repaixão inesperada.

Ela: a coroaça FayeDunaway. Ele: o já obeso MarlonBrando.

Cafona, ridículo? Nada disso: dançaram numa romântica leveza apaixonada. Pensem numa linda mulher com lindas rugas.
Pensem num grotescobeso galã sensual.

Nada mais galante, nada mais leve, nada mais amorado, que a magreza refinada da bela velhuda Faye e o barrigaço de 200 kgs
do MarlonBrando. Que faz papel de um psiquiatra redescobrindo o amor antigo pela esposa ao tratar das loucas fantasias de amor
do paciente Don Juan De Marco – para quem: “A melhor parte do amor é perder todo senso de realidade!”.

Xanavá, manusho!

Negócio é o seguinte, bro: se você lê o velho poeta grego Hesíodo, você sente que a gregalhada antiga tinha razão: não dá pra brincar
com Eros, Deus do Amor, o mais belo, mais sacaninha, mais brincalhão deus-menino: Eros é quem brinca e desbrinca, sem recall:
com aquelas flexadas no coração botava a deusalhada toda doidona: que nem viagra, a flechada de Eros liberava tudo: membros, mistérios,
desejos, bagos, grêlos, línguas, prudências e protocolos divinos e humanos: tocava fudelança geral, mano… uma doidura…

… não dá mesmo pra brincar-de-brincar com o Amor. Nem mesmo os deuses podem.
… é o que dizem as Musas na poesia épica de Hesíodo-velho…
… Eros, doma no coração os espíritos, as vontades, as prudências, de deuses e homens…
… e o orgiasmo apaixonado rolava solto nos primórdios da criação grega… e até hoje continua rolando…

“Sim bem primeiro nasceu Cáos, depois também
Gaia de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
……….. e depois Eros: o mais belo entre deuses imortais,
que libera-membros dos Deuses todos e dos homens todos,
ele doma no coração o espírito e a prudente vontade”

HESÍODO, Teogonia, 115-120, séc. VIII aC.

Flechado por Eros, o sacaninha Deus do Amor, o coração assume o comando. Isso te faz, de repente, perder a noção de tudo:
e tu vai-que-vai, se coçando, se rebentando, uivando, sonho-flutuando, por cima de pau e pedra. Você se cativa e você quer mais.

Amorâncias e gamâncias se desmancham em faixas de chamêgos e safadezas.
Seja como vuco-vuco na tardemansa dos motéis.
Seja como “azaração” ou “ficação” nas baladas funks, axés-music, forrós-eletrônicos, das noitevadias.
Mesmo sendo tudo rapidinho, vapt-vupt!, bateu-levou. Mesmo sem aquele velho charme do namorico na pracinha.
Eros sempre pega e gruda, de alguma forma romântica ou sacaneta ou até nas paradas do mundo digital, nos zaps, faces, websites…

Não dá mesmo pra brincar-de-brincar com o Amor. Nem deuses, nem mortais, seguram a barra.

Há sempre ou uma divina-louquidão, ou uma rebordosa, ou um racha ou um cotovêlo-inchado.
Nesses novos tempos pós-moderninhos, amigão, até o status de “amante” vai virar cornice regulamentada.
Enquanto Eros rola de rir de nossas gostosas ilusões.

Explico: com a presença de 3 deputados e a assinatura fantasma de 39, foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ)
da Câmara, em 2011, o bizarro projeto chamado Lei da Amante. Se a legítima chifreira provar que é de fato amadamante, passa a
ter os mesmos direitos da legítima chifrada amadacasada. O projeto de Lei embora aprovado ainda está na Comissão já há 7 anos.

Daí, mano, se algum dia a Lei da Amante for aprovada no Plenário, aquele amor mocosiado que levanta a auto-estima do
macho-jurubeba e da mulha-fatal, perde todo o fascínio da transgressão, da “amarração” clandestina, dos segredos-de-ventilador
e das calcinhas-safadinhas.

Perde – o Amor – a atmosfera romântica e aventuresca de Casablanca (clic) – o eterno filme dos amores impossíveis.
Ou perde o terno chabadábadá de Un Home et une Femme (clic), de Francis Lai – outro filme de amores-perdidos-e-achados.
Com a Lei da Amante o Amor-regra-tres vira simples B.O (boletim de ocorrência), nada romântico.

Seja lá como for, mesmo que o amor em seus loucos enredamentos seja perigoso demais, como canta Djavan em
Vida Real (clic)amar é preciso… perigosamente preciso… ternapaixonadamente preciso…

Desconfio até que energiamor é o que move e sustenta toda essa geringonça de corpo, alma, crenças, história, capitalismo, contas a pagar,
fanatismos, artes, planetas, partículas, galáxias, infinitos, vidamorte, deuses

Meus campanhas de copa-y-pasión, o Homem é o único ser que quando ama ilumina a si, o outro, a rua, a lua, o sol, a Vida.
Mesmo que seja a luz negra de amores distorcidos e destrambelhados. Ou as taradices de velhos vampiros aposentados e desdentados.

Só o Homem, por conta do amor, sai por ai, em voo leve livre nú, se-achando-se-perdendo, luz alta piscando, como um farol no mar imenso
das paixões, catando sonhos e gaivotas que se perderam pelos caminhos.

Um amor, cada amor, deixa para sempre sua marca dupla na pele do Infinito. Como um tatoo de destinos vivos trançados-se-retrançando.
De corações-amantes saltam sonhaduras que se engancham no céu: faixas de estrelas em gozo de luz.
Não importa se é um amor, dois, ou zent’amores. Não importa.

Seguinte, chefia: brilhou e fez brilhar sonhos, sorriu e fez o mundo sorrir, transbordou e fez transbordar – é amor do bom!
Que não pode ser travado. Que precisa esvoar suas fantasias, mesmo nas fascinantes brumas do proibido.

Do amor único ao multi-amor, dos amores possíveis aos impossíveis – ficam todos lá gravados nos seus avêssos dos avêssos,
nos cotovêlos inchados, nas inelutáveis xifruras, naquele beijo livreloucoalegrefeliz ao luar, nas todas lembruxas passando
nuas na Rua dos Amores (clic) de Djavan, que saindo do coração atravessa os Infinitos de cada um…

Sem lenço, lógica ou documento, o Amor não se explica, nem pede licença.
Chega e pronto. Trisca, engancha. Trolagem e trolhagem, Tá tudo ali no fogo d’olhar. Bagunça o coração.

Encarnações, encadernações, reencarnações, avatares, transmigrações, metempsicoses? – sei não.
Sei que as marcas do amor são inoxidáveis, garranchentas, eternas.
Esse o verdadeiro casamento – amoral – na mais profunda simbólica liberdade de si mesmo e do outro.

GrandesAmores são proclamados em faixas de luz espalhadas no céu. Talvez por isso esteja escrito nas estrelas – em infinitas
faixas d’amores
como canta o mágico StevieWonder em Ribbon in the Sky. (clic)
Quem sente sabe, menina…

About The Author: Ruben G Nunes

Ruben G Nunes

Desfilósofo-romancista & croniKero

Comentários

  • Reply Lucia Melo

    Bastante inspirado. Não consigo escrever muito. Nunca consegui. Talvez, pq gostasse mais de matemática. Mas, parabéns sobre os escritos sobre o amor.

  • Reply Venâncio Pinheiro

    “Por que seria preciso amar raramente para amar muito?” maravilha!
    Venancio Pinhero
    Artista Visual
    Cel: 84 9 9964 9040
    Tel: 36140519

  • Reply Carmen

    Um bouquet completo. Muito amor, muita paixão próprios de tua essência. Você transpira amor e paixão. Você é amor e paixão.

    Eu te amo desde sempre e para sempre.

  • Reply Lucia Melo

    Gosto de ler tudo que vc escreve.

    • Ruben G Nunes
      Reply Ruben G Nunes

      Minha prezada amiga Lucia Melo, agradeço as palavras amáveis sobre essa croniketa “te amo porra!”. Pensei em fazer uma espécie de bouquet literário sobre os vários aspectos fases e sentimentos que o Amor inspira e pira a gente. O tema é infinito. Pitágoras diz que a certeza matemática tá na raiz de tudo até que empacou com a noção de infinitude na divisão do cateto com a hipotenusa do triângulo. O bicho ficou tão emputecido que dizem que mandou matar o discípulo que tinha descoberto essa lokera. Mas a partir daí foi aos poucos se desenvolvendo a importância da lógica matemática ( e não só da pura e ingênua matemática) até chegar a Bertrand Russel na nossa época que reinventou essas paradas. A matemática e a lógica sempre me pareceram uma espécie de esqueleto racional que mal ou bem sustenta a gangorra da VidaReal que é ação brabas de construir-re-desconstruindo, de transgredir toda regra lógica e de infinita expansão do sentimento. O Amor não é matemático. Mas a matemática ajuda com seu esqueleto de rigor. E até na Música. Na teoria musical, nos compassos e tempos que sustentam os sonhos e vôos dos acordes e das melodias… Eu quando escrevo busco sempre o ouvido musical dos encaixes das palavras com as idéias e criações… busco a Música que há em tudo… mas lá no fundo há um rítmo que é a interface da Matemática com a Arte, creio… um abraço

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