O Chaplin de Natal

por Marcius Cortez

A pacata Natal da década de cinquenta vestiu uma camisa listrada e saiu por aí. Já falei do ator Arnaldo Oscar de Paula, um dos maiores foliões daquela época. Pois bem, Arnaldo, por três carnavais seguidos, fantasiara-se de Carlitos angariando risos e confusão. Ele e Charlie Chaplin se parecem: magricelas, baixinhos, braços curtos, pernas finas e danadinhos de ligeirinhos. Arnaldo era bom de bengala, bom de andar correndo, bom de coçar a bunda, bom de tirar e por o chapéu-coco e era imbatível na arte de chutar traseiros de gorduchos, bigodudos e carecas, de preferência, os mais altos e os mais fortes.

Arnaldo Oscar de Paula

As cortinas se abriam e o show começava. Carlitos saía disparado atrás de um freguês para o primeiro pontapé da tarde. Gargalhadas, gritos, aplausos, assobios. Arnaldo voava para o Grande Ponto, pertinho da casa onde morava. Os automóveis cediam espaço para a celebridade que acenava para colombinas, piratas, monstros, caboclinhos, blocos, troças, gregos e troianos. Àquela altura, o número de adultos e crianças que o acompanhavam já havia triplicado. Visivelmente emocionado, Arnaldo viajava na sensação de que fazia a cidade sonhar debaixo daquele sol de assar miolos. Porém no carnaval de 55, ao invés de folia, ele armou foi um fuzuê que eu vou te contar.

Querendo apimentar suas coreografias, o nosso amigo resolvera reproduzir, nas ruas de Natal, algumas das cenas mais famosas da filmografia do grande astro do cinema mudo. Não teve problema quando saboreou os cadarços do sapato pensando que comia macarrão e tudo bem quando imitou Adolf Hitler, matando no peito o mapa da terra em forma de globo. O fuzuê aconteceu quando tocou no assunto “Tempos Modernos” e fixou-se na cena em que Carlitos se põe a agitar uma bandeira vermelha que o caminhão deixara cair na rua. Alta subversão, bandeira vermelha, teje preso seu canalha bolchevique.

Suponho que Arnaldo exagerou no fervor ideológico quando passou no antigo quartel do Exército, vizinho ao velho mercado municipal. Por ali não teve acordo. O sargento de plantão confiscou a bandeira do afoito folião. E pasmem, logo Arnaldo sacou outra bandeira que escondera por baixo do paletó. Pra quê meu tio foi fazer isso? Num passe de mágica, a Lei cercou a área e o investigador mais conhecido da cidade, que por irônica coincidência se chamava Arnaldo, deu um safanão no artista e o jogou dentro da viatura sumindo na poeira da rua. No caminho, Arnaldo de Paula disse de quem era filho e se safou em termos, foi largado na praia da Areia Preta, prá lá do Farol da Mãe Luísa, altas horas da noite.

Tenho para mim que Arnaldo se soltava no carnaval para serenar a sua solidão. O oitavo filho de um rico comerciante do bairro da Ribeira era um folião feliz e ali, meio que deitado no sofá, sonhava que havia resolvido os problemas da Humanidade, usando as armas do vagabundo de sapatos furados, gravata desbotada, bengala quebrada e sorriso inteiro.

Um dia, ele foi dormir e não acordou mais. Foi imortalizado pelo epitáfio mandado gravar em letras marmorizadas por uma de suas namoradas. “Aqui jaz Arnaldo, o pequeno bonitão. Generoso e dono de um lindo pintão. Saudades, Lili”.

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Marcius Cortez

Cinco livros publicados e o jogo ainda não acabou. Escrever é um embate que resulta em vitórias, derrotas e empates. O primeiro livro de Borges vendeu apenas 37 exemplares. O gol é quando encontramos um significado que melhore a realidade.

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