Sugestão de 40 nomes para a vaga deixada por Sanderson Negreiros na ANL

O status de imortal de uma Academia de Letras confere apenas uma chance a mais de ser lembrado pelos feitos literários décadas depois. É o que penso. E sendo assim, aos de pouca vaidade ou despreocupados em ter seu nome referenciado após sua morte, não significa absolutamente nada.

Mas há os desejosos desse status e em nada estão errados. Reconhecimento pelo trabalho árduo de confecção do que julga um bom livro, uma boa pesquisa, etc, é legítimo. E por isso me incomoda algumas injustiças perpetradas há tanto tempo em nossa Academia Norte-rio-grandense de Letras.

A morte recente do poeta, cronista e jornalista Sanderson Negreiros reacendeu a discussão do preconceito escancarado contra a mulher na ANL. Temos hoje, entre os 39 imortais, apenas quatro mulheres: a pesquisadora Leide Câmara, as poetisas Sônia Maria Fernandes e Diva Cunha, e a escritora Eulália Barros.

Entre os 40 patronos fundadores da ANL, apenas três: Nísia Floresta, Auta de Souza e Isabel Gondim. E entre os 40 primeiros ocupantes, mais duas: Carolina e Palmyra Wanderley. De lá para cá, de minha memória só vem os nomes de Anna Maria Cascudo e a assuense Maria Eugênia Montenegro. Então, 11 mulheres na história de 81 anos da ANL.

Mas a ANL também se furta de outro preconceito. É contra os mais jovens. Não lembro de algum imortal com menos de 50 anos. E não, a justificativa do lastro maior de publicações não cabe. Pablo Capistrano e uma penca de poetas seridoenses estão aí para desmentir.

ACADEMIA PARALELA

É notória a abertura da Academia para novos nomes de uns cinco anos pra cá. As próprias Diva Cunha e Leide Câmara vieram no rastro desse novo momento. Lívio Oliveira, Humberto Hermenegildo e Clauder Arcanjo são outros nomes “jovens” para confirmar uma nova aura. Roberto Lima já foge também do estereótipo academicista, para não citar “panelinha” de velhas figuras.

Ainda assim, é realmente triste que exista uma academia de nomes falecidos ou vivos que ainda passe longe dos olhares imortais dos acadêmicos. Claro, muitas vezes por desinteresse próprio, mas também por falta de convite da instituição para aguçar a vaidade ou a oportunidade.

Então, vou tentar montar minha ANL alternativa, com 40 nomes que abrilhantariam e muito nossa real Academia. Claro, com o perdão do esquecimento de alguns ótimos nomes ou lamentando a morte de Deífilo Gurgel, Zila Mamede, Moacy Cirne e outros tantos que morreram imortais mesmo sem uma foto de parede pregada no prédio da Rua Mipibu.

DOM QUIXOTE

E antes da famigerada lista, faço questão de indicar meu nome preferido, fora das próprias críticas levantadas aqui – do preconceito contra a mulher ou o jovem literato. Mas Claudio Galvão, no alto dos seus 81 anos merece há muito tempo. Um trabalho incansável de pesquisa com mais de 12 livros publicados e outros 5 pré-concluídos. Todos de extrema valia para nossa cultura.

Ainda sem status imortalizado, tentei eu prestar alguma homenagem a Claudio, pelo conjunto da obra no palco do Troféu Cultura. Em breves palavras de “reconhecimento”, me enviado por email, Claudio fala da necessidade da obra “mostrada, indicada, justificada” e do esquecimento precoce. Hoje, agorinha, ele deve estar no Arquivo Público, situado num prédio caótico no caótico Alecrim. É ele quem toma conta de lá, o nosso Dom Quixote. Vejam o email:

“Não vi você por lá ontem à noite (no Troféu Cultura). A festa foi muito bonita apesar de muito longa para o pessoal da 4ª idade. Quero parabeniza-lo pois aquilo deve ter dado um trabalho danado, mesmo para um equipe já treinada. A indicação de meu nome, sei que foi sugestão sua. Não sei se cabe agradecimento pois o que você indicou foi um volume de trabalho já realizado. Nada de pessoal. Parece que a palavra adequada é reconhecimento e isto eu tenho sabido ter. Há coisas que estão por aí mas é preciso que sejam mostradas, indicadas, justificadas. O grande público raramente conhece e, quando conhece, esquece depressa. Um número razoável de trabalhos publicados não é coisa muito comum. O conteúdo nem sempre interessa; o que vale é a quantidade. Vamos por aí.

O nosso Rostand (Medeiros) teve a súbita honra de ser, pelo menos uma vez na vida, o motorista de uma celebridade ambulante. E, ainda, apresenta-la para o distinto auditório. Foi regiamente recompensado, à saída, com uma Stella Artois bem gelada e tenros camarões potiguares. E assim terminou minha noite de fama. Já hoje pela manhã estava no Arquivo, cujo teto está desabando lentamente.”

E ainda antes da lista dos outros 39, sem qualquer ordem de predileção, finalizo com uns dizeres de Marcos Silva:

“Nosso grande Moacy Cirne ficou de fora da ANRL… Ele anunciou que só tomaria posse se todos os pares fossem nus para a cerimônia… Melhor que o desfecho de A Pedra do Reino (Euclides liderando os pares de esquerda e Alencar liderando os pares de direita)! Neste tempo de denúncia contra exposições de arte no Brasil, a posse de Moacy seria notícia no Jornal Nacional.”

Academia Alternativa de Letras do RN

1 François Silvestre
2 Marize Castro
3 Osair Vasconcelos
4 Adriano de Souza
5 Antônio Francisco
6 Iara Carvalho
7 Ruben G Nunes
8 Rostand Medeiros
9 Marcos Silva
10 Muyrakitan Macêdo
11 Pablo Capistrano
12 Racine Santos
13 Clotilde Tavares
14 Nei Leandro
15 Maria Maria Gomes
16 João Batista Morais
17 Theo Alves
18 Carmem Vasconcelos
19 Demétrio Diniz
20 Lenine Pinto
21 Padre Pedro Pereira
22 Tarcísio Gurgel
23 Franklin Jorge
24 Kydelmir Dantas
25 Rizolete Fernandes
26 Dacio Galvão
27 Anchieta Fernandes
28 Wescley J. Gama
29 Iracema Macedo
30 Lisbeth Lima
31 Luiz Assunção
32 Mário Ivo
33 Marcius Cortez
34 Constância Lima
35 Nivaldete Ferreira
36 Crispiniano Neto
37 Ada Lima
38 Jarbas Martins
39 Carlão de Souza

OBS: Levo em conta o único critério já explicitado pelo presidente da ANL, Diógenes da Cunha Lima, de pelo menos um livro publicado de relevância à história e cultura potiguares. Acredito que todos esses citados tenham. Não fosse esse critério, outros intelectuais de notória sabedoria e com serviços prestados também poderiam figurar aí, como Afonso Laurentino, meu amigo Tácito Costa, Marechal Porpa, Abimael Silva e outros mais.

OBS2: Reconheço uma lista também com predominância masculina, mas numa proporção bem melhor que a da ANL. Foi um exercício de memória, apenas e foram esses nomes que me vieram à lembrança.


Adendo: Há dois imortais “menores” de 50 anos: Lívio Oliveira e o ministro do STJ Luiz Alberto Gurgel de Faria (não tinha ouvido nem falar), ambos com 48 anos.

About The Author: Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

Comentários

  • Reply FRANCISCO JUNIOR DAMASCENO PAIVA

    Sérgio Vilar, sem desmerecimento para os demais nomes citados, meu voto é para o meu conterrâneo François Silvestre, pelo valor de sua produção.

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