A insustentável leveza das gordas

Croniketa da Burakera #16, por Ruben G Nunes

Campanhas de portos, mares e bares! Brau!

Toda gorda é um feriado. Feriadão. Desses que fazem bem a alma e ao corpo. Que começam na quinta, enforcam a sexta, entram pela segunda. Feriado tem sempre a cara do dia feliz, cheio de luz. De cervejinhamiga, Da praiamanera. E de imensidões várias. Como lentinuvens fofas navegando o azul do dia. Como as fartas carnaduras das gordas.

Há no feriado aquele clima de espreguiçamento-total, que vem lá de dentro e faz esticar o espinhaço todo. Espécie de gozo carnespiritual do nada-fazer.

A expressão “terca-feira-gorda de Carnaval”, é bem exemplo cultural da natureza imensa, bonachona, alegre, do feriado. Rei Momo e Papai Noel só poderiam ser gordos.

Nada de errado, pois, no peso-contra-peso das gordas. Só questão de proporção. Há nas gordas, sensuais massas generosas de VidaViva te chamando para os mistérios voluptuosos das dobras e trinques.

A celulite é, definitivamente, sensual. Todavia, o ideal de beleza ocidental é identificado na moda e na mídia a padrões físicos de magreza acentuada. A ditadura da magreza estética. E haja miséria no churrasco de cada sábado.

É verdade que gordura excessiva, obesidade, é risco de vida. Mas a obsessão da magreza também leva a riscos, como a bulimia, a anorexia. Sem falar nas cirurgias plásticas fatais.

Seja como for, a tecnologia “de ponta” acaba de inventar a bermuda com infravermelho contra celulite. Isto é: contra as gordas!

Entretanto, a galera tupiniquim se liga mesmo é nos fortes encantos sensuais, sexuais, estéticos e amorosos das gordas-violão. E isso desde o Brasil Colônia, conforme notável crônica de Gilberto Freyre, “Paixão Nacional”, publicada na Playboy nº 113, dezembro/1984.

“E as mulheres?”, pergunta-se Freyre sobre a tendência estética do mulherio dos tempos coloniais. Daí Freyre passa a citar a obra “The Soul of Sham”, 1908, do mestre em sexologia Havelock Ellis. Que, em resumo, assim descreve a tendência estética da beleza colonial das mulhas: “Protuberâncias acentuadas com a idade madura. A idade, em mulher bonita, associa-se à gordura… à maior amplitude e acentuação de ancas em relação com as demais partes do corpo.”.

Tal era a tendência de beleza ideal feminina que predominava no Brasil patriarcal. A sinhadona “gorda e bonita”, cavaluda torneada, “bem nutrida, dignamente bunduda, apta ao desempenho de mulher, mãe de sucessivos filhos”, de anquinhas, espartilho e tudo.

Havia também nesse looking o quesito “andar”. A faceirice safada do andar. Aquele rebolar hipnótico de ancas e nádegas articulado ao descuidado movimento do esfregar a xotona na cara do mundo. Que no detalhismo libidinoso de Havelock Ellis seria um andar “de remota influência africana… como se dançasse. É um movimento de bundas bastante amplas – especifique-se – para permitirem essa ondulação como que – sugira-se – afrodisíaca de andar.”. Um danado de olhudo esse Havelock Ellis.

A miscigenação pois, conclui Freyre, pode ter dado à mulher brasileira “gorda e bonita”, ritmos no andar e, por isso também “flexões de nádegas susceptíveis de ser consideradas afrodisíacas”.

Certas celulitezinhas, certas adiposidades, certas estrias, quando bem encaixadas nos contornos e ondulações das ancas, curvas e bundas, são de um lascivo surrealismo alucinatório. E a luxúria dos tremeliques dos pneus – digaí? E as nádegas batendo uma na outra? Se chocando, ambas, com difusas paradinhas-carnibalançantes, em ondulações de pudim – digaí? Uma doideira dos diabos, mano, sacudindo ideologias, bestices, desejos. E vai tudo se escarrapachando e sendo tragado pelos abismos e buracos entrecoxas. Como um Big-Mac que te engole.

Na verdade, uma deusa calipígia é sempre antropofágica e antigravitacional. Daí, cowboy, diante da beleza devoradora das gordas toda leveza ou broxidão fálica é insustentável. É de levantar defunto, cara. Pra lá de Viagra. Eis a estética, a poética, a sinestesia, e os safadeios da boazuda gorda.

Pois apesar do terrorismo estético – há a beleza gorda simsinhô! Os árabes há muito sabem e sentem. Em sua dança do ventre, belas huris contorcem ancas gordas monumentais. Diferente da leveza sensual da magra, há na beleza gorda um peso-sensual que convida à horizontalidade confortável. E, a um bate-estaca incansável. Quando as gordas se escarrancham eróticamente até os olhos trepam e gozam.

Na sensualidade gorda há sempre a sensação de férias contínuas. De prazer pecaminoso. De permanente amizade colorida. De atmosfera caseira. Mas também de safadismos inconfessos. Nos shoppings e calçadas, o balanço da anca adiposa, dentro do vestido leve, mostrando a marca da calcinha engolida, é como uma moderna e fascinante dança-do-ventre. Num vai-e-vem ondulante, lascivo, hipnótico. Espécie de desfile erótico, pós-designer, e com vida-própria que prende e entorta os zôião-zôiudos e te chama aos brios de macho alfa.

A magra é quase sempre paixão perigosa, gamação de matar ou morrer. E ficar roendo pelas encarnações afora. Já a gorda é paixão generosa, afável, tranquilex, terrena. Aqui-agora.

Falo de uma perspectiva larga, claro. Mas, Amor e Beleza são mesmos multiperspectivos. Isso me lembra Kundera, romancista tcheco, autor do imperdível “A Insustentável Leveza do Ser”, que virou um filmaço em 1988, dirigido por Philip Kaufman e estrelado por duas sensualíssimas-mulhas: a francesa Juliette Binoche e a sueca Lena Olin.

O que diz Kundera? Diz que na vida real há sempre uma insustentável leveza no ser ideal. Ou seja: a leveza ou pureza do ser ideal ou da perfeição absoluta é insustentável na vida real. Em outras palavras: o “chocar”, os “choques”, “amassos”, e “redesconstruções” da VidaViva no aqui-agora tornam “pesadas”, por isso insustentáveis, a leveza ou pureza idealista. O ideal fica pojado e pesado das encrencas da vida, e dai “cai na real”.

Quer dizer: na VidaViva o ideal não existe. É só uma fumacinha que vai se desmanchando ao sabor de toques, desejos, interesses. Da Política à Beleza, isso é inegável.

Não há, pois, beleza ideal-absoluta. Nem magra. Nem gorda. Todas as belezas são relativas a padrões multifacetados no aqui-agora.

A beleza magra é, sem dúvida, beleza diáfana. Algo que, por um lado, lembra incompletudes se esvaindo no horizonte de sua própria esquelescência. Por outro lado, em certas práticas íntimas, a magritude é algo total. Algo de pura completude: osso-no-osso-carne-na-carne.

Assim me disse Kermi, um velho-parça e marujo-velho-de-guerra, numa tardemansa, aqui no Bar do (In)Finito, Capim Macio, Natal/RN, Brasil-Esquina, entre coqueiros, estrelas e doses de rum preto e uisk, na faixa: “a magra não deixa atrazado pra receber”. Que na gíria da marujada quer dizer que na hora do vamuvê “a grinfa engole tudo, toda a adriça!” – segredou.

Depois acrescentou: “Toda bruxa é magra. Mas a gorda, se for dessas tipo violão, é coisa de louco! È completude-incompletude tudo junto! Enche os olhos. É fartura de carne sobre carne. O convés-de-popa não é só um traseiro, é um salão de festas…”

Deu uma golada no Bacardi Black (o rum preto de marujos e piratas) e rematou, com olho quase-fechando: “… e no castelo-de-proa, brother, tem bem uns 2 kgs de BigMac entrecoxas…”. Assim é a VidaViva.


FOTO PRINCIPAL: Iwata.

About The Author: Ruben G Nunes

Ruben G Nunes

Desfilósofo-romancista & croniKero

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *